sábado, 31 de outubro de 2020

O CAMINHO PARA A MATURIDADE CRISTÃ (ESBOÇO DE PALESTRA)


TEXTO BÍBLICO

"Portanto, quer vocês comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, façam para a glória de Deus. Não ofendam nem os judeus, nem os gentios, nem a igreja de Deus, assim como também eu procuro agradar a todos em tudo que faço. Não faço apenas o que é melhor para mim; faço o que é melhor para os outros, a fim de que muitos sejam salvos" (1 Coríntios 10.31-33, Nova Versão Transformadora).

INTRODUÇÃO

O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) estava certo quando concluiu que o ser humano é "jogado" na vida quando nasce. É interessante pensar que não pedimos para nascer, não pedimos para vir ao mundo e nem para aqui estar. Mas o fato é que aqui estamos! Como estamos lidando com essa realidade na qual fomos lançados? Como cristãos, crentes na Bíblia como Palavra de Deus, damos sentido à nossa existência com base nas verdades contidas na Palavra de Deus. E um desses sentidos consiste justamente em crescer cada vez mais, em Cristo, por meio de um processo contínuo que chamamos de "maturidade cristã" e que se alicerça sobre os princípios das Escrituras para a vida.

1. O QUE É MATURIDADE

Numa definição a partir do dicionário, maturidade é o "efeito ou circunstância da pessoa que se encontra numa fase adulta; estado das pessoas ou das coisas que atingiram completo desenvolvimento: maturidade comportamental, mental, etc.". [1]. Mas esta pode ser considerada, no contexto deste estudo, um a priori, já que o conceito de "maturidade" pode ser pensado em diversos contextos e sob perspectivas variadas.
O amadurecimento humano pode ser estudado na perspectiva da Psicologia, da Psicanálise, da Teologia, da Pedagogia [2], e de outras áreas do conhecimento. É claro que em cada contexto epistemológico, o conceito de "maturidade" assumirá contornos específicos ao contexto em que é usado. Nosso interesse maior aqui situa-se no campo teológico.
A Bíblia, de certo modo [3], aborda de maneira singular a questão do amadurecimento humano. Concentrando nosso olhar no Novo Testamento, encontraremos diversas menções e orientações práticas que estão diretamente relacionadas à vida cristã em desenvolvimento. "Maturidade", portanto, pode ser entendida por nós, partindo-se de pressupostos neotestamentários, como sendo um estado de constante desenvolvimento pessoal tendo Cristo como o Paradigma maior que orienta esse desenvolvimento.
Diversos textos bíblicos poderiam aqui ser elencados, além do texto que já utilizamos como base deste estudo. Em Filipenses 3, quando Paulo reflete sobre a grandeza do conhecimento de Cristo, alude justamente a ideia de avanço e desenvolvimento pessoal e espiritual: "Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado; mas faço o seguinte: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, pelo prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus" (vv. 13,14, Almeida Século 21).
E como podemos amadurecer e crescer em Cristo? Alguns passos podem ser dados por nós neste sentido, os quais consideraremos a seguir.

2. CAMINHOS PARA O AMADURECIMENTO

O primeiro e mais relevante passo que pode ser dado neste sentido consiste em reconhecer a própria necessidade de amadurecimento pessoal. Só amadurece quem admite que precisa amadurecer, quem reconhece que não é e que não está pronto, inteiro, acabado, completo. É a partir desta percepção que o cristão se abre a modificações pessoais, algumas profundas e outras nem tanto, mas nem por isto sem importância e relevância para a sua vida. A seguir, destaco ao menos oito princípios que auxiliam no processo de amadurecimento e que eu mesmo, ao longo dos anos, tenho procurado praticar.

   2.1 As lições estão pelo caminho

A vida nos ensina, de modo prático e vivencial, diversas lições. A grande questão é: temos tido sensibilidade para percebê-las e aplicá-las? Podemos aprender com os nossos próprios erros e também pela observação do mundo que nos cerca. Ao vermos as pessoas ao nosso entorno colherem frutos amargos em função de escolhas e ações erradas que praticaram, devemos considerar que se trilharmos por caminhos semelhantes poderemos também colher frutos semelhantemente amargos. Não somos melhores ou piores que as outras pessoas ao nosso redor, e ainda que nossas experiências sejam pessoais e por isto mesmo, únicas, fato é que "[...] tudo o que o homem semear, isso também colherá" (Gl 6.7, Almeida Século 21). Desse modo, observar com atenção os fatos da vida nos comunica grandes lições.

   2.2 Ser capaz de ouvir e de observar

Nós, naturalmente, temos uma tendência natural a primeiro tirar conclusões para depois entender, de fato, o que houve, em determinadas ocasiões. Vivemos num contexto em que as pessoas estão sempre prontas para falar, quase sempre indispostas a ouvir. "Ouvir" aqui com o sentido de interessar-se pelo que o outro diz e procura expressar. 
Tenho dito e reafirmado ao longo dos últimos anos que mesmo depois de ter lecionado a mais de mil alunos e de falado inúmeras vezes em igrejas e em vídeos na internet, o ato de ouvir tem sido uma constante em minha vida e tem sido uma bênção ao meu ministério e para o meu amadurecimento pessoal. 

   2.3 Aprendendo com os próprios erros para não perpetuá-los

A imaturidade se percebe quando se é hábil em identificar os erros alheios e maximizá-los. A maturidade se percebe quando se nota a capacidade de identificar os próprios erros e procurar corrigi-los. Na Bíblia lemos que cada um dará conta de si mesmo a Deus (Rm 14.12) e encontramos também a recomendação de que cada um deve avaliar ao seu próprio comportamento: "Mas cada um avalie seu próprio procedimento e, então, terá motivo para orgulho somente em si mesmo e não nos outros" (Gl 6.4, Almeida Século 21).
Devemos lembrar aqui que não basta identificar, é preciso modificar comportamentos. É curioso perceber que muitas pessoas insistem nos mesmos erros durante anos de suas vidas, mesmo colhendo resultados devastadores em decorrência deles. Os vícios, a mentira, a violência dentre outros pecados terríveis que só levam o homem para longe de Deus e da graça, e de uma vida de paz.

   2.4 Estar aberto ao feedback

No subtópico anterior consideramos a necessidade de considerar os próprios erros, colher aprendizado deles e seguir em frente no sentido de não continuar reproduzindo-os. Mas como perceber os próprios erros? Naturalmente, Deus nos deu ferramentas maravilhosas que nos ajudam neste sentido, a saber, as Escrituras e o bom senso. Todos nós podemos recorrer a elas. 
Além desses "recursos" aos quais podemos recorrer, há outro que muito nos auxiliar em nosso crescimento e amadurecimento: o feedback externo, especialmente aquele que é dado por pessoas que querem o nosso bem. É muito comum que nos fechemos a esse tipo de avaliação, por fatores variados: não queremos nos sentir expostos, por questão de privacidade, por constrangimento mesmo, enfim. Mas quando nos abrimos ao "comentário" sobre nós que é feito por alguém que nos conhece, percebe nossas deficiências e nos informa sobre isto, temos muito a ganhar com isto! 
Comportamentos autodestrutivos podem ser encerrados, hábitos ruins podem ser substituídos por hábitos salutares e paredes podem dar lugar a pontes. A grande questão a ser levantada é: estamos abertos ao feedback externo?

   2.5 Equilibrando as relações pessoais

Não podemos negar que somos influenciados por pessoas e que somos seres profundamente gregários. A pandemia por COVID-19 contribuiu muito para deixar este fato sobre a condição humana muito evidente. Sofremos com o isolamento social, uma medida necessária, mas dolorosa. De algum modo, pudemos perceber que a interação é parte essencial da vida humana.
Somos em grande medida a média das pessoas com as quais convivemos. Como cristãos devemos acolher a amar a todas as pessoas, sempre procurando conviver pacificamente com todas elas. Mas é fato também que podemos (na verdade, devemos!) com sabedoria, selecionar aquelas relações que serão as mais influenciadoras sobre nós. E esse círculo íntimo deve ser constituído por aquelas pessoas que nos "catapultam" para cima, acreditam em nós, nos afastam das coisas ruins e nos previnem contra o mal.

   2.6 Administrando produtivamente o seu tempo

Como você gasta o seu tempo? Você passa mais tempo com o controle remoto do que com os livros?  Você passa mais tempo com mídias sociais do que construindo relações sociais reais interessantes? Você investe mais tempo em passeios do que em formação e qualificação profissional? 
Nosso futuro é construído no agora, e a vida passa rapidamente. É preciso pensar seriamente em como investimos nosso tempo. Há coisas que consomem nosso tempo e não representam nenhum tipo de ganho. Há outras coisas nas quais investimos nosso tempo e que representam acúmulo de valor e de conhecimento.

   2.7 Desenvolvendo as disciplinas da vida cristã

Outro passo impreterível para o desenvolvimento da maturidade cristã é o cultivo das disciplinas da vida cristã. Quais são elas? Duas em especial, destacam-se aqui: a oração e a leitura-estudo constante das Escrituras. São práticas que devem ser contínuas na vida de todo cristão e são absolutamente edificadoras da personalidade do crente em Jesus. 
Um ponto deve-se destacar aqui: é preciso destacar as duas disciplinas. Oração + leitura-estudo das Escrituras. Uma disciplina sobremodo exercida em detrimento da outra gera desequilíbrio da vida cristã e, em muitos casos, pseudo-espiritualidade.

   2.8 Conhece-te a ti mesmo!

Como conhecer a si mesmo? Eu, de fato, conheço a mim mesmo? Qual é o meu temperamento e como ele influencia a minha vida? Quais são as minhas aptidões e limites? Tenho investido adequadamente em nossas qualidades e procurado reduzir nossos defeitos, especialmente os mais destrutivos? 
Além do encontro e reencontro diário com o Evangelho (que nos desnuda a nós mesmos!), podemos também estabelecer diálogo com áreas do conhecimento que nos ajudam nesse processo de autoconhecimento, como a Teologia, a Psicanálise, a Filosofia, dentre outras. Por exemplo, pessoas que se abrem a ajuda profissional de psicólogos e psicanalistas em geral testemunham do enorme ganho que tiveram em suas vidas pessoais a partir do atendimento que receberam desses profissionais.

CONCLUSÃO

Uma das maiores necessidades da Igreja contemporânea é por crentes amadurecidos, que tenham entendido de fato o significado do discipulado cristão. Uma igreja local de fato sadia e equilibrada, menos adoecedora e mais terapêutica, só será realmente possível na medida em que seus membros forem pessoas maduras e em maturação. O dogmatismo, o "ensimesmamento religioso" e teológico, daquele do tipo "eu sempre fui assim", "não é preciso atualizar nada" e outras formas de rigidez e rispidez só evidenciam a incapacidade de muitos cristãos de mudarem quando necessário e assim amadurecerem em Cristo, tornando-se pessoas melhores e mais saudáveis ao seu próximo. Cresçamos, pois, em tudo, naquele que é o Cabeça da Igreja, Cristo (Ef 4.15).

REFERÊNCIAS

1. Dicio - Dicionário Online de Português. [Site]. Maturidade. Disponível em: <https://www.dicio.com.br/maturidade/>. Acesso em 31 out. 2020.

2. Considere-se, por exemplo, as teorias de desenvolvimento da inteligência, como a teoria pieagetiana chamada de epistemologia genética, ou ainda, a contribuição de Lev S. Vygotsky a esse respeito. É claro que ali o conceito de maturação não tem o sentido aqui pretendido, mas há certa correlação no sentido de se investigar o desenvolvimento humano sob perspectivas genéticas, cognitivas e em interação com o meio, com a sociedade, com o mundo e com a vida.

3. Escrevo "de certo modo" porque na elaboração, reafirmação ou mesmo atualização de dogmas cristãos, que se alicerçam sobre o fundamento bíblico (este inamovível), devemos ter todo o cuidado no sentido de não sermos anacrônicos, atribuindo conceitos que são recentes, ao texto bíblico. Podemos - e devemos - embasar nossa fé e doutrina no que as Escrituras ensinam, mas respeitando seu ensino original, e dele sim derivando nossa doutrina.

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