sexta-feira, 23 de julho de 2021

BÍBLIAS DE ESTUDO: PRECISAMOS DE MAIS?

(Observação: este artigo foi originalmente escrito e publicado em 2015, em meu extinto site Teologia & Discernimento, e revisado e expandido para ser publicado aqui).

Foi com muita alegria que pude ter um de meus “rascunhos” prefaciados por aquele que considero ser não apenas um pregador, mas um pregador-teólogo, comprometido com a verdade do evangelho, Pr. Hernandes Dias Lopes. Suas palavras naquele prefácio foram marcantes e as compartilho aqui, com você: “Hoje o Brasil é o país que mais imprime bíblias no mundo, mas ainda temos uma geração de analfabetos da Bíblia. Poucas igrejas têm um compromisso sólido com o ensino das Escrituras” (LOPES, Hernandes Dias. Prefácio in: COZZER, Roney Ricardo. Introdução ao Antigo Testamento: Pentateuco, Livros Históricos, Poéticos e Proféticos. Curitiba, PR: Editora Emanuel, 2018). 

De fato, convivemos com uma enorme negligência no que tange ao ensino sistemático das Escrituras e a sua promoção pela liderança das nossas igrejas, especialmente as pentecostais (o que, como pentecostal, reconheço com tristeza). Nosso povo também é muito desinteressado de aprender a Palavra de Deus e de cultivar uma vida de devoção profunda (evitemos generalizações, é claro). 

Não é preciso uma pesquisa envolvendo muitas pessoas para se averiguar isso. Nossos cultos de ensino bíblico e de oração em geral ficam sempre vazios. Como alguém que vem proferindo palestras em igrejas e promovendo cursos bíblicos e teológicos, constato isso com meus próprios olhos. E nem sempre a razão desse esvaziamento se dá porquê o palestrante ou o professor é desqualificado. A realidade é que há mesmo um desinteresse, tanto por parte do povo como por parte da liderança de nossas igrejas.

Mas nem tudo são cardos! Temos presenciado sim um crescimento considerável do interesse por parte dos cristãos pelo conhecimento da Bíblia, inclusive entre pentecostais. Cresce a venda de livros teológicos e a busca por cursos teológicos, livres e com reconhecimento do Ministério da Educação e Cultura (MEC). E, naturalmente, cresce também o interesse por Bíblias em várias versões e pelas Bíblias de Estudo.

Por mais de uma vez já me perguntaram, pessoalmente e durante palestras que proferi sobre Bíblia e tradução bíblica, se precisamos mesmo de mais Bíblias de Estudo e se isso na verdade não é apenas o reflexo de um mercado que se instalou na Igreja evangélica Brasileira. A minha resposta para essas duas perguntas é sempre um “Sim”: sim, precisamos de mais Bíblias sim, um mercado se instalou. 

Estou convencido de que a minha resposta dupla representa a realidade em torno dessas questões. De fato, muitas Bíblias de Estudo já foram escritas e elas cumprem o seu papel no sentido de promover o conhecimento das Escrituras, sua melhor compreensão, o entendimento dos contextos que envolveram a produção do texto bíblico, oferecendo assim diversas contribuições. Eu mesmo tenho algumas em minha pequena biblioteca particular. E diga-se ainda que várias dessas Bíblias foram produzidas por estudiosos sérios, de vasta cultura bíblica, de erudição teológica, comprometidos com a difusão da Palavra. 

No esforço para não cometer injustiças e fugindo de qualquer parcialidade, e ainda, reconhecendo o valor desses homens a despeito de possíveis divergências teológicas, cito alguns nomes como Russell P. Shedd, Donald Stamps, Antonio Gilberto, Cyrus Ingerson Scofield, Luiz Sayão, Roland de Vaux, dentre outros, é claro. Sua contribuição nesse sentido é inegável. O próprio Donald Stamps, dias antes de morrer, deixou-nos um marcante testemunho, registrado na conhecida Bíblia de Estudo Pentecostal: “A visão, chamada e sentimento de urgência que tive da parte de Deus para preparar esta Bíblia de Estudo ocorreram-me quando eu servia ao Senhor como missionário no Brasil. Observei que os obreiros necessitavam de uma Bíblia com estudos que os auxiliasse na orientação de seus pensamentos e nas suas pregações. Isto posto, por dez anos, a partir de 1981, comecei a escrever as notas e estudos doutrinários desta obra” (STAMPS, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 15)

As palavras acima são comoventes e ensinadoras. Uma obra que vem à tona como resposta à necessidade de um povo, de uma igreja, de seus obreiros e que demora uma década (!) para ser produzida, demonstrando-se com isto que o projeto foi encarado com seriedade e dedicação. 

Há alguns anos, grande polêmica surgiu em torno de uma Bíblia que foi lançada com o nome de certo cantor evangélico, na época muito popular. E de fato, não era pra menos. A Bíblia levava a logomarca do cantor na capa e como ele mesmo afirma em um vídeo explicativo sobre o projeto, nela ele contava suas experiências pessoais com Deus, além de oferecer, na Bíblia, algumas fotos pessoais. Não pretendo aqui julgar suas intenções, como alguns fizeram na internet, na época, chegando a alegar que o produto surgia numa hora em que a vendagem dos seus CDs estava em declínio. Penso que só Deus pode julgar com total precisão as intenções do coração humano. Mas algumas questões merecem nossa avaliação crítica pela sua evidência: o referido cantor não demonstrava cultura bíblica alguma em suas canções e ele alegava crer que a Bíblia, com fotos e relatos de suas experiências pessoais com Deus, poderiam estimular os jovens a ler mais a Bíblia. As motivações para tal projeto são, no mínimo, questionáveis. Justificar um projeto dessa natureza alegando que precisa-se de uma Bíblia que divulga experiências pessoais para estimular a sua leitura é no mínimo um absurdo. Precisamos sim de Bíblias que expliquem a própria Bíblia levando-nos a entendê-la melhor! 

Embora tenha um pouco de reserva quanto a livros que tenham caráter muito pessoal, estou convencido de que seria muito mais legítimo por parte do cantor evangélico que ele tivesse escrito um livro, de cunho pessoal, onde poderia ter compartilhado com o seu público as suas experiências, mas atrelar isso a uma Bíblia é realmente inadmissível. Considero isso uma ofensa a uma tradição de longa data que vem sendo cultivada no sentido de produzir Bíblias de Estudos com enfoques variados. 

O referido cantor apelava à sua popularidade, dizia ser um dos mais influentes cantores evangélicos na época e que desejava usar isso para incentivar os jovens à leitura da Bíblia. Admito que nossa influência possa ter alguma utilidade, mas nesse caso, essa não seria essa uma motivação equivocada? Paulo expressa sua motivação em pregar o evangelho dizendo que isso era uma necessidade para ele (cf.: 1 Co 9.16), e não porque era influente. Em outras palavras, o evangelho por si, e não pelo anunciador. 

Fiquei mais consternado ainda ao saber que o projeto foi patrocinado pela Sociedade Bíblica do Brasil, uma editora cujo legado maior é a difusão das Escrituras no Brasil e no mundo. Deixo claro aqui que minha crítica neste texto não me leva a ignorar o fato de que, no que tange à difusão da Bíblia, a Sociedade Bíblica do Brasil é uma das maiores referências mundiais. Estou convencido, contudo, de que tal patrocínio, por parte da referida Sociedade, é incoerente com a sua visão, com o seu legado e com o seu projeto maior que é “Promover a difusão da Bíblia e sua mensagem como instrumento de transformação e desenvolvimento integral do ser humano” (Sociedade Bíblica do Brasil [site]. Disponível em <http://www.sbb.org.br/interna.asp?areaID=14>. Acesso em 13 abr. 2015). E reconheço que ela tem, com eficácia, cumprido essa missão, para glória de Deus. Mas, por que patrocinar um projeto como esse, que leva o nome de um cantor que em suas canções não transparece cultura bíblica, não evidencia intimidade com a Bíblia e dava um viés essencialmente pessoal ao projeto?

Voltando à pergunta que dá título a este texto, “se precisamos de mais Bíblias de Estudo?”, respondo que Sim e que Não. Sim, pois precisamos que o povo evangélico tenha à sua disposição ferramentas de estudo de qualidade, produzidas por estudiosos com boa formação e experiência, com vistas a aumentar sua compreensão da Palavra de Deus. E não, definitivamente não precisamos de Bíblias que sejam produzidas com vistas a divulgar experiências pessoais e imagens pessoais, sendo reduzidas apenas a uma possível tendência de mercado. E no mais, experiência pessoal é pessoal: só serve para quem a teve. No máximo, podemos colher algumas lições. 

Não, não precisamos de Bíblias que divulguem fotos e fatos sobre quem quer que seja porque essa pessoa é influente ou famosa. Isso não produz espiritualidade e nem profundidade de vida cristã. Isso só será gerado no cristão quando ele desenvolver uma vida de contínua comunhão com Deus por meio da oração, da leitura e do estudo contínuo das Escrituras e sua consequente compreensão. Esse caso, na época, na verdade, não foi o único. Outros projetos ridículos como esse já foram veiculados e isso só evidencia o quanto a Igreja brasileira precisa dar meia volta em direção a verdade do evangelho e viver conforme ela. Lamento profundamente que uma crise se instala em nossos dias e precisamos de fato experimentar um reavivamento, um retorno às Escrituras.

Concluo este breve texto desejoso de que Deus continue sim levantando teólogos para produzirem novas Bíblias de estudo, mas com a motivação correta, a exemplo do que pudemos ler acima, das palavras do Missionário Stamps, autor dos estudos e notas da Bíblia de Estudo Pentecostal. Obras que surgem com o objetivo de servir de modo eficaz à Igreja brasileira, enobrecendo assim sua utilidade e finalidade.

sábado, 17 de julho de 2021

TABELA: HISTÓRIA DA HERMENÊUTICA BÍBLICA

Prezado(a) leitor(a), tabelas tem a grande vantagem de nos permitir organizar a informação de modo panorâmico. A tabela abaixo é um esforço para organizar, em ordem cronológica, os documentos, personagens e instituições que tem relação com a história da interpretação das Escrituras.


HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA

Documentos, personagens, conceitos e instituições relacionados à interpretação

Breve descrição

Ocasião histórica

Targums judaicos (no plural é targumim).

São traduções e comentários da Bíblia Hebraica em aramaico, produzidos em Israel e na Babilônia.

Período do Segundo Templo até o início da Idade Média.

A Septuaginta (LXX)

Tradução grega do Antigo Testamento hebraico. É considerada a primeira tradução completa das Escrituras, na Antiguidade.

Entre os séculos dois e três a.C.

Rabino Hillel

Desenvolveu sete regras.

Primeiro século da Era Cristã.

Pesher

Exegese desenvolvida pelos mestres essênios, na comunidade de Qumran. O peshat era o método literal, que considerava o aspecto filológico e o contexto histórico.

Primeiro século da Era Cristã.

Midrash

Forma narrativa desenvolvida pelos judeus, através da tradição oral. A palavra Midrash vem da junção de duas palavras hebraicas, "Mi" que significa "quem" e "Darash" que significa "pergunta". O plural de midrash não é midrashim, segundo a língua hebraica.

É um dos dois tipos de interpretação típicas da hermenêutica rabínica, juntamente com o Pesher. O Midrash consistia em buscar o sentido oculto que estava além do significado evidente da passagem.

Foi criada no século I mas a sua primeira compilação se deu apenas no quinto século d.C., no livro Midrash Rabbah.

O uso do Antigo Testamento pelo Novo Testamento.

“[...] os escritores do Novo Testamento usaram quase 300 citações do Antigo Testamento juntamente com centenas (ou até milhares, de acordo com alguns) de outras alusões a ele” (SILVA. KAISER JR., 2002, p. 202).

Primeiro século da Era Cristã.

Escola de Alexandria

Utilizava o método alegórico para interpretar as Escrituras.

Primeiros três séculos da Era Cristã.

Orígenes - anagogia

Seguia o método alegórico de Filo, adotado na escola de Alexandria. Utilizava a anagogia (palavra que significa “ascendente”), método que consistia em ascender a alma do nível da carne para o nível espiritual.

185-253/254 d.C. aproximadamen-te.

Escola de Antioquia

Utilizava a doutrina da theoria entendendo que as Escrituras possuíam um único significado que incluíam o literal, o espiritual, o histórico e o tipológico (SILVA. KAISER JR., 2002, p. 202).

Foi fundada, provavelmente, por Luciano de Samosata, por volta do final do terceiro século d.C.

Escola do Ocidente

Foi uma escola Eclética, pois utilizava princípios das Escolas de Antioquia e de Alexandria. Foi representada por grandes teólogos, como Jerônimo e Agostinho (SILVA. KAISER JR., 2002, p. 202). Incluiu um elemento que até então não havia sido considerado como uma questão importante: a autoridade da tradição na interpretação da Bíblia. Foram figuras de destaque dessa escola: Hilário, Ambrósio e principalmente, Agostinho e Jerônimo, o tradutor da Vulgata Latina.

Entre o quarto e o quinto século d.C.

Quádriga

Crê-se que foi João Cassiano, um monge e escritor asceta do sul da Gália, falecido no final do quinto século d.C., quem elaborou a Quádriga. Agostinho, tido como um dos principais representantes da escola Ocidental, defendeu também esse sentido quádruplo das Escrituras, a Quádriga. A Quádriga distingue quatro sentidos nas Escrituras, a saber:

 

1. O sentido literal ou histórico: busca o sentido evidente e óbvio do texto;

2. O sentido alegórico ou cristológico: é o sentido mais profundo apontando sempre para Cristo;

3. O sentido tropológico ou moral: relacionado ao cristão em sua conduta, e,

4. O sentido anagógico ou escatológico: relacionado ao futuro.

Início da Idade Média.

Tomás de Aquino

Defendeu o sentido literal como base para todos os outros sentidos das Escrituras, sem necessariamente negar esses sentidos. Na verdade, ele, assim como outros estudiosos medievais de destaque, manteve-se leal ao método alegórico, que prevaleceu como principal método na Idade Média. Aquino chegou a escrever uma defesa da Quádriga em Suma Teológica.

1225-1274


Elabora por Roney Cozzer

Referências para a tabela

NETO, Tiago Abdalla. Uma proposta de abordagem hermenêutica para a compreensão do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento – parte 2. Teologia brasileira. [Site]. Disponível em: <https://teologiabrasileira.com.br/uma-proposta-de-abordagem-hermeneutica-para-a-compreensao-do-uso-do-antigo-testamento-no-novo-testamento-parte-2/>. Acesso em 17 jul. 2021.

SILVA, Moisés. KAISER Jr, Walter C. Introdução à Hermenêutica Bíblica: como ouvir a Palavra de Deus apesar dos ruídos de nossa época. Trad.: Paulo César Nunes dos Santos. Tarcízio José Freitas de Carvalho e Suzana Klassen. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.

sábado, 3 de julho de 2021

SOBRE RELAÇÕES HUMANAS


Prezado(a) leitor(a), compartilho com você algumas máximas provocativas a respeito da arte das relações humanas. Este é um assunto muito caro para mim e as reflexões a seguir são frutos de minhas percepções a respeito do tema, de leituras e do meu esforço pessoal para desenvolver a capacidade de me relacionar melhor com o meu próximo, ao longo de muitos anos, ora acertando, ora errando, mas buscando sempre progredir neste aspecto. 

1. Aprendi que, em relação a algumas pessoas, o melhor caminho é amá-las, mas manter sempre uma certa distância segura;

2. Seja cordial e auditivo com todos, mas amizade, ofereça para poucos. Somente a prova da convivência poderá mostrar quem realmente é amigo;

3. Confidências são só para aqueles que as avaliam com sabedoria e amor. Lembre-se: não administramos o que as pessoas farão com aquilo que damos a elas;

4. Fale menos, ouça mais; evite responder sem que te perguntem ou justificar-se quando não está diante de um juiz. Aja com integridade e com a melhor intenção, e poderá sempre falar com segurança;

5. Não construa paredes, mas pontes. Você poderá precisar atravessar o rio em algum momento;

6. Faça o bem e ame incondicionalmente, mas não carregue quem tem condições de andar. Você não estará ajudando realmente essa pessoa;

7. Não fale mal das pessoas. Ao fazer isso, você na verdade fala mais de você do que das pessoas...

8. Não é possível mudar as pessoas. No máximo, influenciá-las. Sabendo disto, você reconhece que na maior parte da vida o mais importante é modificar a si mesmo;

9. No escuro, seja quem você seria no claro. D. L. Moody estava certo quando disse que "caráter é o que somos no escuro". Ninguém sustenta duas personalidades para sempre;

10. Ética, seja boa ou ruim, é como o bumerangue: sempre volta para você;

11. Não subestime as pessoas pelo que elas NÃO possuem. A fome é um dos elementos que faz o leão ser o que ele é;

12. Elogie com sinceridade, só critique quem permite que você o faça (e em particular!) e evite a bajulação. Acredite: relações utilitárias podem até gerar algum benefício, mas são o caminho para a solidão profunda;

13. Pode acreditar: a felicidade passa pelas relações humanas. Poucas coisas na vida valem mais que uma mão amiga, o sorriso à mesa de uma filha querida, o abraço de um cônjuge companheiro e uma boa conversa com um amigo querido e verdadeiro... Detalhe: isso tudo não custa nada, mas você precisa plantar e cultivar...

14. Entenda de uma vez por todas: as pessoas são sempre e ambiguamente maravilhosas e complexas, rasas e profundas, próximas e distantes, preenchidas e vazias... Mas lembre-se: você é uma delas!

Por Roney Cozzer


 

sábado, 1 de maio de 2021

EXEGESE BÍBLICA: PLANO DE ENSINO


PLANO DE ENSINO


DISCIPLINA

Exegese bíblica


PROFESSOR

Me. Roney Cozzer

Currículo Lattes e produção bibliográfica.


BIBLIOGRAFIA

WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento: manual de metodologia. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulus, 1998.

ALEXANDRE JÚNIOR, Manuel. Exegese do Novo Testamento: um guia básico para o estudo do texto bíblico. São Paulo: Vida Nova, 2016.

KUNZ, Claiton André. Método Histórico-Gramatical: um estudo descritivo. Revista Via Teológica. Curitiba: vol. 2, nº 16, FTBP, 2008. Disponível aqui.

PAROSCHI, Wilson. Crítica textual do Novo Testamento. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1999.

OMANSON, Roger L. Variantes textuais do Novo Testamento: análise e avaliação do aparato crítico de "O Novo Testamento Grego". Trad.: Vilson Scholz. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.

COZZER, Roney R. Contribuições da Crítica Textual para a compreensão dos evangelhos sinóticos in: GUSSO, Antonio Renato. KUNZ, Claiton André. (org.s.). Interpretar é preciso: exercícios de leitura e interpretação. Curitiba: Núcleo de Publicações Fabapar, 2018. Disponível aqui.


1. DEFINIÇÃO E IMPORTÂNCIA DA EXEGESE

  1.1 Definição de Exegese

  1.2 Diferença da Hermenêutica

  1.3 Sua importância para a Igreja

  1.4 Ferramentas digitais para o estudo da Exegese

    Bible Hub (em português)

    The Word

    Bíblia Hebraica

  1.5 O Método Histórico-Gramatical

  1.6 O Método Histórico-Crítico


2. A DELIMITAÇÃO DO TEXTO BÍBLICO

  2.1 Significado da palavra "perícope"

  2.2 O que justifica a delimitação de textos bíblicos

  2.3 Vantagens da delimitação

  2.4 Exemplos de delimitações

  Marcos 4.10-13; Isaías 52.13 a 53.12; 1 Coríntios 10.23-11.1.

  2.5 Como delimitar


3. TRADUÇÃO

  3.1 O que é tradução e sua importância

  3.2 Tipos ou teorias de tradução

    3.2.1 Equivalência formal

    3.2.2 Equivalência dinâmica

  3.3 Problemas e desafios na tradução

    3.3.1 Figuras de linguagem

    3.3.2 Hebraísmos

    3.3.3 Palavras e conceitos que não possuem equivalentes na língua receptora


4. ANÁLISES DO TEXTO E DE SEU CONTEÚDO

  4.1 Literária (lexical, morfológica, estilística, sintática e literária)

Análise que compreende outras análises, todas no campo da língua e do texto. 

    4.1.1 Léxica

A análise léxica ou lexicográfica é aquela em que se considera o sentido lexical das palavras bíblicas.

    4.1.2 Morfológica

A análise morfológica consiste em considerar como as palavras são flexionadas ou conjugadas. E deve-se mencionar que a maneira como as palavras são formadas incide diretamente em seu significado.

    4.1.3 Estilística

Considera o estilo literário do autor da perícope em estudo, o que significa dizer que esta análise considera também as peculiaridades literárias do autor. Aqui, Kunz (2008, p. 212) indica a necessidade de se considerar as figuras de linguagem presentes nas Escrituras.

      4.1.3.1 Polissíndeto e Assíndeto

      4.1.3.2 Hipérbole

      4.1.3.3 Paralelismos

        4.1.3.3.1 Paralelismo sinonímico

        4.1.3.3.2 Paralelismo antitético

      4.1.3.4 Metáfora

      4.1.3.5 Quiasmo

    4.1.4 Sintática

Kunz (2008, p. 213) afirma que a sintática "[...] é a parte da gramática que estuda a disposição das palavras na frase e das frases no discurso, bem como a relação lógica das frases entre si".

    4.1.5 Literária

Se ocupa da análise do texto em sua estrutura e considera também em qual gênero literário o texto está escrito.

  4.2 Histórica

  4.3 Cultural

  4.4 Religiosa

  4.5 Teológica


5. CRÍTICA TEXTUAL (ECDÓTICA)

  5.1 Definição e uso

  5.2 Justificativa da Crítica Textual

  5.3 Definições

    5.1 Autógrafo

    5.2 Colação

    5.3 Variantes textuais

    5.4 Papiro, pergaminho, rolo e códice

    5.5 Lecionários

    5.6 Uncial, cursiva e minúscula

    5.7 Manuscritos mais importantes

      5.7.1 P52

      5.7.2 Papiros Chester Beatty

      5.7.3 Códice Alexandrino

      5.7.4 Códice Vaticanus

      5.7.5 Códice de Leningrado

      5.7.6 Manuscritos do Mar Morto ou Manuscritos de Qunram


6. A APLICAÇÃO 

  6.1 O que é aplicável a nós, hoje?

  6.2 O que é aplicável a mim, pessoalmente?

  6.3 A Lei do Uso como ferramenta para se identificar o que é aplicável


REFERÊNCIAS

KUNZ, Claiton André. Método Histórico-Gramatical: um estudo descritivo. Revista Via Teológica. nº 16, vol. 2, Curitiba: FTBP, 2008.

domingo, 11 de abril de 2021

PLANO DE AULA - HERMENÊUTICA BÍBLICA

PLANO DE AULA

Por Roney Ricardo Cozzer


INSTITUIÇÃO: INSTITUTO TEOLÓGICO QUADRANGULAR (ITQ)

DISCIPLINA: HERMENÊUTICA BÍBLICA

DATA: 24 ABR. 2021


APRESENTAÇÃO PESSOAL

Evangelista na Assembleia de Deus (ES), autor, professor e palestrante na área da Teologia. Mestre em Teologia pelas Faculdades Batista do Paraná (FABAPAR), possui formação em Psicanálise pelo Centro Teológico e Psicanalítico do Espírito Santo (CETAPES), é licenciado em Pedagogia e História.

Contato: roneyricardoteologia@gmail.com

Canal no YouTube: Repensando meu Cristianismo

Blog Teologia & Vida

Grupo no WhatsApp Teologia & Vida (compartilhamento de conteúdos)


DEVOCIONAL


APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA

Sua posição na Teologia. 

Disciplinas correlatas (Exegese; Filologia Sacra; Homilética).

Sua importância e contribuição, na Academia e na Igreja.


INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS


Bibliografia Básica

BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica Fácil e Descomplicada. 3ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.

COZZER, Roney Ricardo. Hermenêutica e Educação: uma proposta de formação educacional a partir da leitura popular da Bíblia. Joinville, SC: Editora Santorini, 2020.

FEE, Gordon D. STUART, Douglas. Entendes o que lês? Um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica. Trad.: Gordon Chown. Jonas Madureira. 3ª ed. rev. amp. São Paulo: Edições Vida Nova, 2011.

RICOEUR, Paul. A Hermenêutica Bíblica. Trad.: Paulo Meneses. São Paulo: Edições Loyola, 2006.


Bibliografia complementar

BEALE, G. K. O uso do Antigo Testamento no Novo Testamento e suas implicações hermenêuticas. Trad.: Marcus Throup. São Paulo: Vida Nova, 2014.

GEFFRÉ, Claude. Como fazer teologia hoje: hermenêutica teológica. Trad.: Benôni Lemos. São Paulo: Ed. Paulinas, 1989.

KEENER, Craig S. A hermenêutica do Espírito: lendo as Escrituras à luz do Pentecostes. Trad.: Daniel Hubert Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2018.

OSBORNE, Grant. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. Trad.: Daniel de Oliveira. Robinson N. Malkomes. Sueli da Silva Saraiva. São Paulo: Vida Nova, 2009.

SILVA, Moisés. KAISER Jr, Walter C. Introdução à Hermenêutica Bíblica: como ouvir a Palavra de Deus apesar dos ruídos de nossa época. Trad.: Paulo César Nunes dos Santos. Tarcízio José Freitas de Carvalho e Suzana Klassen. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.

BERKHOF, Louis. Princípios de interpretação bíblica: um estudo cuidadoso de um meio que o Espírito da verdade emprega para conduzir seu povo em toda a verdade. 4ª ed. rev. São Paulo:
Cultura Cristã, 2013.


EXPLICAÇÃO DA ATIVIDADE A SER REALIZADA EM SALA

Leitura de um breve texto e discussão em grupos (3 a 4 pessoas) e em seguida, apresentação dos resultados à classe. Cada grupo deverá escolher uma pessoa para ser a representante do grupo e falar aos demais colegas de classe.


1. DEFINIÇÕES INICIAIS

  1.1 Definição etimológica

  1.2 Definição teológica

  1.3 Definição filosófica

  1.4 Pressupostos fundamentais

    1.4.1 O autor (hagiógrafo)

Os distanciamentos. Aproximações são possíveis.


    1.4.2 O leitor contemporâneo

A importância do leitor. 

Contribuições de Paul Ricoeur. 

O círculo hermenêutico (H. Gadamer).


    1.4.3 O meio 

O texto bíblico como veículo da Revelação; suas especificidades.


2. SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS EM RELAÇÃO À EXEGESE BÍBLICA


3. JUSTIFICATIVA DA HERMENÊUTICA

"Analfabetismo bíblico-funcional" (COZZER).

Anacronismo bíblico.

O sitz im leben do texto bíblico como tópos substancialmente diferente do nosso.


4. OBJETIVOS DA HERMENÊUTICA

Elucidar o sentido do texto bíblico.

Oferecer princípios de interpretação bíblica.


5. TRABALHO EM GRUPO

Duração: meia hora.


6. PRINCÍPIOS DE INTERPRETAÇÃO BÍBLICA

Raiz etimológica

Usus loquendi

Gênero literário

Contexto da passagem

Lei do uso

O ambiente histórico-social

A Bíblia como "unidade"


7. A QUESTÃO DOS GÊNEROS LITERÁRIOS DA BÍBLIA

Definição de "gênero" a partir da Poética de Aristóteles.

A importância de se identificá-los.

Poesia (suas características).

Salmos (suas características).

Narrativa (suas características).

Evangelhos (suas características).

Apocalíptica judaica (suas características).


8. HEBRAÍSMOS

O que são os hebraísmos. 

Exemplos de hebraísmos.  

Exemplos de hebraísmos no texto grego do Novo Testamento.


9. AS FIGURAS DE LINGUAGEM DA BÍBLIA

O que são.

Sua presença na Bíblia.

A importância de se conhecê-las.

Exemplos de tipos de figuras de linguagem: hipérbole, eufemismo, metáfora, símile, onomatopeia e ironia.


10. O USO DO ANTIGO TESTAMENTO PELO NOVO

A questão da intertextualidade na Hermenêutica Bíblica.

Os três níveis de utilização do Antigo Testamento pelo novo: citações, alusões e ecos (G. K. BEALE).

Exemplo prático: Oséias 11.1 por Mateus 2.15: uma ressignificação?


11. O MÉTODO HISTÓRICO-GRAMATICAL

Um método sincrônico.

Valorização do gramma. 

Abertura ao sobrenaturalismo bíblico.


12. O MÉTODO HISTÓRICO-CRÍTICO

Um método diacrônico.

Crítica das fontes.

Crítica da redação (a teologia do autor).

Crítica das formas.

sábado, 10 de abril de 2021

O LIVRO DE JÓ (ESBOÇO DE SERMÃO)


Jó conversa com seus amigos, por Gustav Doré

TEXTO BÍBLICO BASE: 

"1. Na terra de Uz vivia um homem chamado Jó. Era homem íntegro e justo; temia a Deus e evitava o mal. 2 Tinha ele sete filhos e três filhas, 3 e possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas parelhas de boi e quinhentos jumentos, e tinha muita gente a seu serviço. Era o homem mais rico do oriente.
 4 Seus filhos costumavam dar banquetes em casa, um de cada vez, e convidavam suas três irmãs para comerem e beberem com eles. 5 Terminado um período de banquetes, Jó mandava chamá-los e fazia com que se purificassem. De madrugada ele oferecia um holocausto em favor de cada um deles, pois pensava: "Talvez os meus filhos tenham lá no íntimo pecado e amaldiçoado a Deus". Essa era a prática constante de Jó" (Jó 1.1-5, Nova Versão Internacional).

Por Roney Ricardo Cozzer


INTRODUÇÃO

Nesta breve análise do livro de Jó, serão considerados alguns aspectos importantes dessa obra ímpar, como a sua estrutura literária, sua autoria, data de composição e sua mensagem. Mas inicialmente, é necessário discorrer sobre a literatura de sabedoria do Antigo Testamento, onde se situa o livro de Jó. Mesmo que se reconheça que exista certa independência do livro em relação aos demais livros classificados como de sabedoria e poéticos, eles possuem elementos comuns que os perpassam e que os conectam. Daí a importância de se considerar inicialmente esse gênero literário de sabedoria.


1. A LITERATURA DE SABEDORIA

Os Livros Poéticos ou Livros Sapienciais do Antigo Testamento são em número de cinco. Embora poucos livros, eles possuem um grande volume literário. Esses livros são: Jó (com 42 capítulos, Salmos (composto por 150 salmos), Provérbios (31 capítulos), Eclesiastes (12 capítulos) e Cantares (oito capítulos). Com exceção deste último livro, o de Cantares, os demais são livros extensos, com muitos capítulos. Exegetas católicos classificam também em cinco os livros chamados de “Sapienciais”, mas sinalizando alguns livros que não constam do cânon protestante. São eles: Provérbios, Jó, Eclesiastes, Sabedoria de Sirac (Eclesiástico ou Sirácida) e o Livro da Sabedoria (de Salomão).

A palavra “sabedoria” é muito recorrente nas Escrituras. No hebraico o termo é hokmâ e em grego sophia. Possui várias aplicações, podendo indicar desde a habilidade de um artesão, como em Êxodo 36.8, julgamento real (1 Re 3.28) ou piedade (Pv 9.10; Jó 1.1). Somos informados ainda de que a palavra “sabedoria” ocorre cerca de 400 vezes, sendo três quartos das ocorrências nos livros de Sabedoria (BROWN. FITZMYER. MURPHY, 2007, p. 883). 

Um aspecto comum aos Livros de Sabedoria é a sua internacionalidade, que pode ser evidenciada pela presença de personagens não israelitas nesses livros, como os amigos de Jó, a “[...] comparação explícita da sabedoria de Salomão com a de povos do Oriente e do Egito [...] e pela nítida influência da sabedoria extrabíblica” (BROWN. FITZMYER. MURPHY, 2007, p. 883,84). 

Outro aspecto comum aos Livros de Sabedoria é a sua ênfase na origem da sabedoria: Iavé. O Senhor é visto como o “princípio da sabedoria” (cf.: Pv 9.10, ARC). Outras palavras equivalentes a “sabedoria” aparecem também indicando que a sabedoria vem do Senhor: “ciência” (Pv 1.7, ARC), “saber” (Pv 1.7, NAA) e “conhecimento” (Pv. 1.29). Mormente no livro de Provérbios (mas não apenas nele) esta é uma ideia recorrente. O interesse pela sabedoria está presente em outros povos, como entre os gregos que produziram homens como Sócrates, Platão e Aristóteles, mas sem conhecimento de Deus.

Ainda outro aspecto muito importante sobre a sabedoria presente nos livros sapienciais é que ela possui um viés altamente prático (sabedoria experiencial). Dito de outra forma: a sabedoria nos Livros Sapienciais busca orientar para a vida. Não por acaso, esses livros de Sabedoria contém muitos provérbios, lições e ensinos extraídos do cotidiano e direcionados ao cotidiano (considere, por exemplo, o ensino de Eclesiastes 3 sobre o tempo e a descrição da mulher virtuosa em Provérbios 31.10-31).

Os Livros Sapienciais constituem um dos mais belos conjuntos de textos já produzidos pela humanidade. O livro de Jó aborda como nenhum outro a questão do sofrimento humano. O livro dos Salmos registra o que há de mais profundo em termos de adoração a Deus. O livro de Provérbios contém muitas máximas de sabedoria que se aplicam admiravelmente, mesmo após muitos séculos de sua composição. O livro de Eclesiastes, como nenhum outro, coloca em evidência a falibilidade da vida humana. E por fim, em linguagem poética, o livro de Cantares realça o amor conjugal.


2. O LIVRO DE JÓ

Neste tópico, consideraremos o livro de Jó quanto a alguns aspectos literários. Esse conhecimento prévio prepara o caminho para que se possa estudar a mensagem do livro.


  2.1 Título e historicidade

O título do livro é alusivo ao personagem principal do livro: o patriarca Jó. Há divergências entre os comentaristas bíblicos sobre a historicidade desse personagem. A posição ortodoxa entende Jó como um personagem real, na História, sendo possível, inclusive, situá-lo de modo aproximado, no tempo.

Como argumentos em favor da historicidade de Jó tem sido citados os textos de Ezequiel 14.14,20 e Tiago 5.11, que se referem a Jó como um homem real. Inclusive do texto de Tiago sobre Jó é que, possivelmente, deriva o adágio popular: “Paciência de Jó”.


  2.2 Autoria e data

A Crítica Bíblica se inclina a situar o livro de Jó no período pós-exílio. De fato, há fortes indícios de que a sua composição se dá depois do Exílio, como por exemplo a satanalogia presente no livro, bem desenvolvida e avançada, diferindo substancialmente do restante do Antigo Testamento nesse sentido. 

Mesmo que se admita que o livro seja produto do período pós-exílio, não é incoerente pensar que o livro preserve uma tradição muito mais antiga. Com efeito, o livro evidencia que o autor conhecia muito bem um período que é de fato muito anterior: o período dos patriarcas.

Podem ser assim mencionados alguns detalhes interessantes, presentes no livro de Jó, que apontam justamente para a possibilidade dos fatos narrados no livro terem ocorrido no período patriarcal. 


  1. A medição da riqueza feita por animais (a mesma do tempo de Abraão; cf. 1.3);

  2. A menção de povos muito antigos: os sabeus e caldeus (1.15,17);

  3. A presença da expressão hebraica traduzida como “peça de dinheiro” só encontrada ali e em Gênesis 33.19 (considere o paralelo);

  4. A maneira de Jó oferecer sacrifícios bem ao padrão patriarcal;

  5. A longevidade de Jó, comum ao período patriarcal;

  6. O uso frequente do nome divino Shaddai (31 vezes) em lugar de Iavé pode ser considerado como um indicativo de que o livro esteja relatando eventos de um período anterior ao Êxodo.


  2.3 Sua estrutura literária

O livro de Jó possui uma estrutura que pode ser resumida, basicamente, da seguinte maneira: inicialmente, há uma parte histórica, que situa o personagem principal do livro e revela o pano de fundo do seu sofrimento (cap.s. 1 e 2); depois, seguem-se uma série de diálogos, começando com o solilóquio de Jó no capítulo 3, tendo lugar em seguida os discursos dos amigos de Jó – Elifaz, Bildade, Sofar e Eliú – (cap.s. 3 a 37); por fim, a partir do capítulo 38, temos a “resposta” de Deus (cap.s. 38 a 41). O livro encerra com o capítulo 42 que inclui a reação de Jó a resposta de Deus e alguns informes de cunho históricos.

O livro de Jó pode ser assim esboçado:

  I. PRÓLOGO (cap.s. 1 e 2)

  II. DIÁLOGO (cap.s. 3 a 31)

  III. DISCURSOS DE ELIÚ (cap.s. 32 a 37)

  IV. DISCURSO DE DEUS E RESPOSTA DE JÓ (cap.s. 38 a 42) (BROWN. FITZMYER. MURPHY, 2018, pp. 925-27).


3. SUA MENSAGEM (SUA TEOLOGIA)

O livro de Jó é lido, relido e admirado por milhões de pessoas, inclusive não cristãs, no mundo inteiro, ao longo de gerações. E ele continua oferecendo uma mensagem que fala às pessoas, no tempo atual. Sua teologia centra-se em torno de uma pergunta lancinante: “Por que sofre o justo?” Curiosamente, o livro não se preocupa em necessariamente “responder” a esta pergunta, embora a sua teologia gire justamente em torno dela. 

Jó é um livro que retrata o sofrimento de um homem justo que entende estar sofrimento injustamente, sem merecer. Justamente por isto, um tema teológico que perpassa todo o livro é o da justiça. A maior seção do livro que vai do terceiro capítulo até ao 31, contendo o diálogo poético entre Jó e seus três amigos, Elifaz, Bildade e Zofar,  é justamente uma discussão em torno do “[...] profundo problema teológico do significado do sofrimento na vida de um homem justo” (R. A. F. Mackenzie. Roland E. Murphy. Jó. in: BROWN. FITZMYER. MURPHY, 2018, p. 922).

Outro ponto interessante a se considerar que alguns teólogos católicos consideram o livro de Jó, juntamente com Eclesiastes, como uma possível reação aos demais livros poéticos que enfatizam a bênção decorrente da retidão e da obediência. No caso de Jó, o que ocorre é o contrário. Ele sofre e perde drasticamente tudo mesmo sendo irrepreensível. 

Outro tema teológico muito importante no livro de Jó é o da perseverança. Jó é melhor compreendido como sendo perseverante, mais do que paciente, visto que ele, em determinados momentos do livro, se mostra realmente exasperado. Mackenzie e Murphy comentam: “O provérbio popular ‘paciência de Jó’ parece derivar da Epístola de Tiago [...]. Ele é tanto sem sentido (Jó não é paciente) quanto inexato (hypomone significa ‘firmeza’ ou ‘perseverança’). Jó é perseverante, apesar dos altos e baixos de sua experiência” (R. A. F. Mackenzie. Roland E. Murphy. Jó. in: BROWN. FITZMYER. MURPHY, 2018, pp. 921,22).


4. APLICAÇÃO

Podemos extrair diversas aplicações e reflexões para nossa espiritualidade a partir do estudo desse maravilho livro. Em primeiro lugar, destaco o fato de que a Palavra de Deus evidencia que a sabedoria divina continua disponível a nós, hoje, de modo que no Novo Testamento somos até mesmo incentivados a buscar do Alto essa sabedoria (cf.: Tg 1.5; 3.13-18). 

Também aprendemos que Deus continua presente mesmo quando falta um sentido para o sofrimento que enfrentamos. E por mais chocante que seja, Jó nos ensina que Deus está acima dessa busca humana por sentido. "Não fazer sentido, em alguns momentos na existencialidade humana, faz todo sentido!"

Também aprendemos que nem sempre obteremos resposta de tudo que perguntamos ao Senhor. Observe-se que o livro de Jó é cheio de indagações e há uma grande e teológica pergunta que perpassa o livro: "Por que o justo sofre?" Todavia, curiosamente, o livro termina sem uma resposta contundente a essa pergunta! Longe disto, a partir do capítulo 38, o Senhor, ao "responder" Jó de um redemoinho, lança-lhe mais uma série de indagações.

Por fim, somos lembrados pela teologia de Jó que a vida implica sofrimento; homens e mulheres justos sofrem também. Sofrimento e bênçãos vem sobre todos. A chuva cai sobre justos e injustos, bons e maus.


CONCLUSÃO

No final do livro, Jó é retratado sendo amplamente abençoado por Deus e recuperando seus bens e tendo outros filhos, bem como tendo também sua longevidade estendida. Em 42.10 pode-se ler o seguinte: “E depois que Jó intercedeu pelos seus amigos, o Senhor o livrou e lhe deu o dobro do que possuía antes” (Almeida Século 21). Noutras palavras, podemos afirmar que o livro de Jó é também um livro de perseverança e de esperança.


REFERÊNCIAS

BROWN, Raymond E. FITZMYER, Joseph A. MURPHY, Roland E. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Antigo Testamento. Trad.: Celso Eronides Fernandes. São Paulo: Paulus, 2018.

COZZER, Roney Ricardo. Introdução ao Antigo Testamento: Pentateuco, Livros Históricos, Poéticos e Proféticos. Cariacica, ES: Instituto de Educação Cristã CRER & SER, 2018.

BÍBLIAS DE ESTUDO: PRECISAMOS DE MAIS?

(Observação: este artigo foi originalmente escrito e publicado em 2015, em meu extinto site Teologia & Discernimento, e revisado e expan...