quarta-feira, 11 de novembro de 2020

O CORPUS JOANINO

 

INTRODUÇÃO

O corpus joanino compreende as três epístolas atribuídas ao apóstolo João, o “discípulo amado”, que conviveu com Jesus e foi ele próprio testemunha ocular dos fatos relativos a Jesus e ao seu ministério. A primeira epístola contém cinco capítulos, a segunda e a terceira, apenas um. Mesmo que consideremos as três juntas, tratam-se de escritos breves, quando comparadas a outras epístolas, como Romanos ou Hebreus. Nem por isto deixam de ser importantes em diversos aspectos: teológico, exegético e devocional.

1. O CORPUS JOANINO

Esses três escritos são também chamados de “escritos joaninos”. São incluídas nessa lista chamada de “Epístolas católicas”, um agrupamento feito já muito cedo na Era Cristã, mas diferentemente das demais que formam esse conjunto, elas “[...] são endereçadas a destinatários específicos, tratando de assuntos específicos” (BERG in: ARRINGTON. STRONSTAD. (ed.s.), 2003, p. 1749). Elas incluem ensinos a respeito do amor a Deus e ao próximo, a verdade, a ruptura com o pecado, dentre outros. 

2. A PRIMEIRA EPÍSTOLA DE JOÃO

Esta epístola registra vários ensinos relacionados ao caminhar na luz, ao amor ao próximo, a preservação dos anticristos, a viver como filhos de Deus, a ruptura com o pecado, dentre outros temas. Acredita-se que o autor está combatendo um falso ensino chamado de Docetismo. O termo grego dokeo significa “parecer”. Este ensino afirmava que Jesus não era de fato humano, apenas parecia ser. João insiste, no entanto, que “[...] nossas mãos apalparam do Verbo da vida” (1.1, Bíblia de Jerusalém).
Esta epístola é assim esboçada por Mauerhofer (2010, pp. 552,53):


2.1 Autoria

Há várias discussões em torno da autoria joanina para 1 João. Um fato não se pode negar: o autor não se identifica nela. Nas outras duas o autor se identifica, mas não pelo nome “João”, e sim como “presbítero”. 
Foi Dionísio de Alexandria, no Egito, a primeira pessoa a associar 1 João com o Evangelho de João, isto já no terceiro século d.C. Como Berg bem observa, “as evidências nos próprios textos têm sido usadas para argumentar tanto a favor como contra a mesma autoria do Evangelho e das cartas” (BERG in: ARRINGTON. STRONSTAD. (ed.s.), 2003, p. 1749). Consideremos a seguir alguns desses argumentos apresentados contra a autoria joanina:

- As cartas refletiriam um período de composição bem posterior ao apóstolo João;
- O Evangelho de João seria distinto, em seu pensamento e linguagem, das cartas, alegando-se, inclusive, que 1 Pedro seria inferior ao Evangelho de João no que tange à criatividade e estilo;

Para Berg, no entanto, “nenhum destes argumentos é atrativo (BERG in: ARRINGTON. STRONSTAD. (ed.s.), 2003, p. 1750). O referido autor apresenta respostas possíveis a esses argumentos contrários à uma autoria joanina. Vejamos:

- As diferenças no pensamento e na linguagem pode ser explicadas pela mudança de propósito das cartas em relação ao Evangelho de João;
- Sobre a autodenominação “presbítero”, uma explicação possível seria que João bem poderia ter recorrido a um amanuense e esse, por sua vez, teria se identificado na carta como “presbítero” (cf.: Jo 21.24 e note o “e sabemos” do versículo).

“Este é o discípulo que dá testemunho dessas coisas e foi quem as escreveu: e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro” (Jo 21.24, Bíblia de Jerusalém, grifo meu). Esse “e sabemos” presente no versículo pode ser o indicativo de um grupo de fiéis falando aqui.
Deve-se mencionar ainda que não necessariamente 1 João é substancialmente distinto do Evangelho de João. Berg chega a comentar que “[...] embora a mesma autoria não possa ser provada, a mesma tradição e perspectiva não podem ser questionadas” (BERG in: ARRINGTON. STRONSTAD. (ed.s.), 2003, p. 1750).

2.2 Data da composição

Estima-se uma data posterior à data da escrita do Evangelho, logo, no final dos anos 90 d.C. Um fator que dificulta ou limita a datação desse escrito é que não há um indicativo interno de onde ele possa ter sido produzido. A possibilidade mais aceita (ao que parece) é que 1 João tenha sido escrita em Éfeso, cidade onde João morou.

2.3 Destinatários

Há indicativos de que a audiência de 1 João não é, necessariamente, a mesma do Evangelho de João. Os leitores do Evangelho estão enfrentando a dor da separação forçada da sinagoga e estão em conflito com os representantes do judaísmo farisaico (cf.: BERG in: ARRINGTON. STRONSTAD. (ed.s.), 2003, p. 1750). Não é este o caso dos leitores da Primeira Epístola de João.
Os destinatários dessa epístola são cristãos que se mantinha ligado por elos de fé comum e orientados pelos ensinos de João (ou pela tradição joanina). Esse grupo de crentes é chamado pelos exegetas de "comunidade joanina", a comunidade de cristãos (possivelmente um conjunto de igrejas locais) que receberam esses escritos. A eles, o autor se dirige de modo muito amável, usando expressões como "amados".

3. A SEGUNDA CARTA DE JOÃO

Trata-se de um pequeno escrito, mas com grande significado e relevância. Pode ser esboçada da seguinte maneira:

   1. Saudação (vv. 1-3);
   2. Andar em amor (vv. 4-6);
   3. Permanecer nos ensinos de Cristo (vv. 7-11);
   4. Saudação final (vv. 12,13) (BERG in: ARRINGTON. STRONSTAD. (ed.s.), 2003, p. 1795).

Aqui, nesta segunda carta, o autor se identifica: "O Ancião à Senhora eleita e a seus filhos, que amo na verdade - não apenas eu, mas todos os que conheceram a Verdade" (v. 1, Bíblia de Jerusalém). A Bíblia de Jerusalém traduz o termo grego πρεσβύτερος como "ancião", ao passo que outras traduções trazem "O presbítero", indicando um líder espiritual em idade mais avançada.
Quem seria essa "senhora eleita"? Uma igreja local ou uma pessoa, de fato? Alguns comentaristas bíblicos, considerando a conexão da palavra "senhora" com a palavra "eleita" indicam que se trataria na verdade de uma forma simbólica do autor se dirigir a uma igreja local. O termo "eleito" é usado no Novo Testamento para se dirigir a cristãos. 
Deve-se lembrar que há autores que defendem também a ideia de que João estaria, de fato, escrevendo a uma cristã, a quem ele se dirige de maneira muito respeitosa. É o caso de Mauerhofer (2010, p. 563): "Conforme nossa concepção, as palavras devem ser entendidas como tratamento cortês de uma mulher respeitada, embora as demais interpretações não devam ser inteiramente descartadas".

4. A TERCEIRA CARTA DE JOÃO

Há evidências de que esta carta foi escrita também pelo mesmo autor da segunda carta, o “presbítero”. Há elementos em comum, como a ênfase ao amor e à prática do bem, e também a maneira fraterna como o autor se dirige a seu destinatário lembra a segunda carta. Berg observa ainda que a forma de tratamento dispensada a Gaio - "amado" - "[...] revela uma forma singular dessa expressão, tendo sido usada várias vezes em 1 João quando o autor se dirigia aos crentes (por exemplo, 1 João 2.7; 4.1)" (BERG in: ARRINGTON. STRONSTAD. (ed.s.), 2003, p. 1801).
Este breve escrito pode ser assim esboçado:

   1. Saudação (vv. 1,2);
   2. O elogio a Gaio (vv. 3-8);
   3. Acusação a Diótrefes (vv. 9,10);
   4. A exortação ao bem (vv. 11,12);
   5. Palavras finais e saudação (vv. 13,14) (BERG in: ARRINGTON. STRONSTAD. (ed.s.), 2003, p. 1801).

CONCLUSÃO

A terceira carta de João inclui alguns elogios a Gaio, em função dele permanecer na verdade (v. 3), bem como da hospitalidade que ele manifestou em relação a irmãos em Cristo que lhe eram estranhos, mas que a despeito disto, manifestou caridade cristã em relação a eles (vv. 5-8). A terceira carta de João, assim como as duas anteriores, proveem a Igreja de ensinos valiosos que são perfeitamente aplicáveis/atualizáveis para os dias atuais. O exemplo de hospitalidade de Gaio tal como citado pelo apóstolo João consiste de um desses ensinos.

REFERÊNCIAS

ARRINGTON, French L. STRONSTAD, Roger (ed.s.). Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento.  Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Bíblia de Jerusalém: nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2006.

MAUERHOFER, Erich. Introdução aos escritos do Novo Testamento. Trad.: Werner Fuchs. São Paulo: Editora Vida, 2010.

BÍBLIAS DE ESTUDO: PRECISAMOS DE MAIS?

(Observação: este artigo foi originalmente escrito e publicado em 2015, em meu extinto site Teologia & Discernimento, e revisado e expan...