terça-feira, 21 de abril de 2020

BIBLIOLOGIA | SÉRIE TEOLOGIA EM MINIATURA | VÍDEO 01

Este é o primeiro vídeo de uma série intitulada "Teologia em miniatura". Neste primeiro vídeo, falo sobre a disciplina Introdução à Bíblia.

A ideia é compartilhar com o internauta definições objetivas e indicações de livros sobre disciplinas e temas da Teologia.

Inscreva-se no canal e ative o sininho das notificações.


domingo, 19 de abril de 2020

SUBSTITUIÇÕES INDEVIDAS NO MOVIMENTO PENTECOSTAL (ESBOÇO DE SERMÃO)



TEXTO BÍBLICO

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por meio dos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, o Senhor lhes acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos” (ATOS 2.42-47, NAA).

INTRODUÇÃO

Este, sem dúvida, é um daqueles sermões difíceis de serem transmitidos. Uma mensagem “pesada”, mas necessária. No livro de Atos dos Apóstolos encontramos referenciais para nós, hoje, no século 21, e não um padrão de perfeição, visto que nem a Igreja no primeiro século estava isenta de falhas e imperfeições. Mesmo assim, em Atos podemos perceber um modus vivendi que deve servir de inspiração para nós. Ali temos representado um perfil de Cristianismo a ser imitado, a ser experienciado por nós.
O Movimento Pentecostal cresceu muito no Brasil e no mundo. A partir dos eventos ocorridos em Azusa Street, em Los Angeles (EUA), em 1906, as igrejas pentecostais espalharam-se pelo Brasil e por outros países, que foram alcançados pela chama pentecostal.[1] Hoje, muitos movimentos são identificados como “pentecostais”, mas é preciso lembrar que nem todos os pentecostais concordam com tudo que se apresenta como “pentecostal”.[2] O Pentecostalismo Clássico preza por valores cristãos bem definidos, valoriza as Escrituras e a experiência com Deus e a ordem no culto ao Senhor.
Infelizmente, ante essa confusão em torno da experiência pentecostal genuína, muitos valores vem sendo deixados de lado e tem ocorrido nas igrejas pentecostais históricas o que chamo, aqui neste esboço, de substituições indevidas no Movimento Pentecostal. Consideremos elas, a seguir, e também as respostas que devem ser dadas tendo a Palavra de Deus como base.

1. OBSESSÃO PELO GRANDE

Existe uma busca desenfreada pelo que é grande, pelo que chama a atenção, pelo que é dotado de muitos recursos. O evangélico brasileiro acostumou-se a conviver com líderes que se comprazem em mostrar estruturas e nem tanto programas de formação humana e de assistência social. Avalia-se a qualidade de uma igreja pelo tamanho do prédio que ela tem e quanto maior for o número de congregações, maior será o ministério. Noutras palavras, o conceito de “maior” foi reduzido a números.
Jesus, precisamos lembrar, nasceu numa manjedoura, foi criado por pais paupérrimos e falou a poucas pessoas, por vezes. O Reino de Deus não opera com a lógica do mercado e para Deus, o maior pode ser o menor, e o menor o maior; o primeiro poderá ser o último, e o último o primeiro.

2. OBSESSÃO POR FAMA E VISIBILIDADE

Estabeleceu-se no Movimento Pentecostal uma verdadeira obsessão por fama e visibilidade, o que tem levado nossos púlpitos a serem usados mais para exibição humana do que para a proclamação da Palavra de Deus. Essa substituição indevida ocorre também quando preferimos os famosos em lugar dos importantes. Tornou-se comum pagar caro para trazer em nossas igrejas cantores e pregadores que cobram altos cachês, enquanto temos entre nós pessoas que por anos se dedicam à igreja local, produzindo frutos e cujo caráter conhecemos. Todavia, esse interesse em trazer para nosso meio os “famosos” só evidencia que nos tornamos obsessivos por fama e por visibilidade. Isto tem contribuído também para o que pode ser chamado de “estrelismo na casa de Deus”.

3. A POMPA EM LUGAR DA SIMPLICIDADE TÍPICA DO EVANGELHO

Criticamos tanto o Catolicismo por sua pompa e ostentação, mas infelizmente, neste quesito, nosso pecado vem se tornando pior que o dos católicos. Aqui, são pertinentes as palavras do pastor protestante francês Laurent Gagnebin (1997):
O templo e o culto protestantes não têm de se vestir de ornamentos ilusórios e supérfluos; com efeito, a sua nudez remete para a glória somente de Deus. A precariedade protestante encontra então no provisório uma parte da sua encarnação. Os templos não foram feitos para durar [...]. Num culto demasiado brilhante, o protestante fareja qualquer coisa de adulterado e, sobretudo, uma vaidade sempre possível. “A Deus somente a glória”. No espírito protestante, a riqueza da Igreja – e das igrejas – é excessiva. Não manifestará ela uma infidelidade chocante face à cruz de Jesus?[3]

As palavras – lancinantes! – de Gagnebin podem parecer estranhas para alguns pentecostais, mas são o reflexo de um pensamento genuinamente cristão. A simplicidade deve ser uma marca do crente em Jesus e do culto verdadeiramente pentecostal. Infelizmente, muitos cultos e outros eventos pentecostais mais se parecem com shows do que com cultos, de fato.

4. PERFORMANCE EM LUGAR DA VOCAÇÃO

Isto tem dado lugar ao mercenarismo no contexto cristão. Nota-se uma preocupação excessiva em cumprir um papel mais do que comunicar o evangelho. Nossos púlpitos foram tomados por atores e os despenseiros do evangelho perderam lugar. Temos convivido com personagens em nossos cultos, cuja alma não se pode “ver” em suas prédicas. E nessa esteira, nossas crianças estão sofrendo um sério problema: comportam-se como adultos em decorrência de influência adulta (adultização precoce de crianças). Pregadores e cantores mirins com agenda de “gente grande”! Um assunto sério e que precisa ser seriamente revisto por nós (Cf.: 1 Co 13.11).

5. MENSAGEM ANTROPOCÊNTRICA EM LUGAR DA MENSAGEM CRISTOCÊNTRICA

Essa substituição indevida tem dado lugar ao triunfalismo religioso, que substitui a mensagem da cruz de Cristo por uma mensagem que promete vitória e vitória. Mensagens de êxito pessoal são apresentadas ao povo sem a exposição bíblica de que é preciso haver compromisso com Deus e de que a vida cristã implica também em sofrimento. E ainda: estamos presenciando uma ênfase exagerada em mensagens de vitória substituindo mensagens evangelísticas durante nossos cultos. Infelizmente, já não vemos mais “evangelistas” pregando a partir de nossos púlpitos.

6. APARENTE ESPIRITUALIDADE EM LUGAR DO CARÁTER

Pessoas há que aparentam serem homens e mulheres de Deus, mas não expressam em seu viver diário um compromisso real e genuíno com o Deus da Palavra e com a Palavra de Deus. Basta proferirem algumas palavras em línguas estranhas e os crentes concluem que essas pessoas são realmente espirituais e tem uma vida profunda com Deus, quando na verdade, conforme ensinou o Mestre amado, é “[...] pelo fruto [que] se conhece a árvore” (Mt 12.33, NAA[4]).

7. HERESIAS E MODISMOS TEOLÓGICOS EM LUGAR DA REFLEXÃO BÍBLICA SÉRIA

O determinismo religioso percebido em expressões como “eu determino”, “eu abençôo”, dentre outras similares, tornou-se uma tendência em igrejas pentecostais. Mas esse modismo teológico não é a única ameaça à integridade doutrinária de nossas igrejas. Há outras, que precisamos conhecer e responder com a mensagem e a vivência simples do evangelho.
A Teologia da Prosperidade é outra dessas ameaças constantes em nosso contexto. Mesmo que denominações pentecostais históricas, como a Assembleia de Deus, não aceitem oficialmente a Teologia da Prosperidade[5], ela está presente no momento do ofertório. Essa “mecânica” tão comum em nossos cultos que ensina que quanto mais ofertamos mais recebemos de Deus em troca, nada mais é que o reflexo da presença da Teologia da Prosperidade entre nós. Mas o ensino bíblico sobre contribuição financeira não se baseia nessa “mecânica”, mas sim no princípio de liberalidade e do amor ao próximo. Não tem nada que ver com esse utilitarismo atrelado ao ato de ofertar, tão fomentado pelos teólogos da prosperidade.

8. ENTRETENIMENTO MUSICAL EM LUGAR DA ADORAÇÃO

Nossos templos, hoje, estão equipados com o melhor dos equipamentos de som e instrumentos musicais (e isso deve de fato ser explorado pelo povo evangélico), mas nem sempre vemos isso ser usado para a glória de Deus. Pelo contrário, temos visto isso ser usado para a promoção de pessoas no meio evangélico. Desse modo, disputa-se uma oportunidade para cantar, mas com a motivação de ser promovido ou promovida. Música profissional não deve ser confundida com adoração a Deus. Podemos sim ter entre nós adoradores que são músicos profissionais, o problema é quando temos músicos profissionais que não são adoradores... Pensemos nisto.

9. IRREVERÊNCIA E APATIA ESPIRITUAL EM LUGAR DA REVERÊNCIA E TEMOR NO CULTO

Essa substituição ocorre quando o culto se torna mero encontro social e religioso. Ocorre também quando o culto se torna enfadonho e cansativo para nós, como acontecia nos dias do profeta Malaquias: “Eis aqui, que canseira!” (Ml 1.13a). Tornou-se comum para muitos pentecostais a ideia – totalmente equivocada – de que um culto para ser verdadeiramente pentecostal precisa ser marcado por gritarias, loucuras comportamentais, gestos insanos e outras bizarrices que temos presenciado nos últimos anos e que recebe o nome de “culto pentecostal”. Mas um pentecostal clássico, naturalmente, estranha essa ideia. Nosso entendimento é que quanto mais reverente o culto pentecostal for, quanto mais solene ele se mostrar, mais propício será para a ação poderosa do Espírito Santo. Particularmente, fui educado a tratar o momento do culto pentecostal seguindo alguns princípios que compartilho a seguir: chegar antes do culto começar; em chegando mais cedo, entrar ao templo e orar pelo culto[6]; não conversar durante o culto; ouvir atentamente a exposição bíblica; não ficar andando durante o culto e evitar frequentar o banheiro do templo; cantar conjuntamente com a congregação, assim como orar também de modo racional e equilibrado, dentre outros princípios.

CONCLUSÃO

A Igreja de Cristo deve ouvir Sua poderosa voz. Deve seguir nos seus passos, fazendo Sua vontade. É triste quando absorvemos os padrões de comportamento de uma era secularizada e que não conhece a Deus. Devemos lembrar do ensino de Jesus em Mateus 5.13 e vivê-lo. Só assim poderemos de fato resgatar valores fundamentais ao genuíno Pentecostalismo, preservando sua pureza e alegria de vivê-lo.

Para baixar o arquivo em PDF, clique aqui.

Roney Cozzer serve como presbítero na Assembleia de Deus, professor de Teologia, autor e palestrante. Atua como docente, tutor EAD e coordenador pedagógico na Faculdade Brasileira (FABRA). Contato: roneyricardoteologia@gmail.com 



[1] Confira o artigo Movimento Pentecostal à Teologia, Contribuições do.
[2] Confira o artigo Pentecostalismo, Uma defesa do.
[3] GAGNEBIN, Laurent. O Protestantismo. Lisboa, Portugal: Biblioteca Básica de Ciência e Cultura, Instituto Piaget, 1997, p. 89.
[4] Grifo meu.
[5] Diferentemente da Igreja Universal do Reino de Deus, que assume abertamente a Teologia da Prosperidade.
[6] Orar mesmo e não apenas cumprir gestos mecânicos como ajoelhar e sequer saber o que se está falando.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

LIVE COM DR. JÚLIO LAZZARI (SP)

VAI PERDER?
Olá! Passando para lhe convidar para estar conosco na Live do dia 18 próximo, às 17 h, quando serei entrevistado pelo Dr. Júlio Lazzari (SP), para refletirmos sobre temas relacionados à Teologia. Não deixe de assistir via Instagram (link abaixo).
Pergunte, comente e compartilhe.
Lhe esperamos!



domingo, 12 de abril de 2020

APOSTILA: BREVE ANÁLISE DA EPÍSTOLA DE TIAGO


APOSTILA: BREVE ANÁLISE DA EPÍSTOLA DE TIAGO

Roney Cozzer [1]

SUMÁRIO



INTRODUÇÃO 


I. PERSEVERANÇA E A OBSERVÂNCIA DA PALAVRA DE DEUS EM DIVERSOS ASPECTOS (CAP. 1) 

1.1. Saudação e considerações iniciais (vv. 1,2)

1.2. Adversidade que ensina (vv. 2-4)

1.3. A sabedoria que vem do alto (vv. 3-8)

1.4. Repreensão aos ricos opressores (vv. 9-11)

1.5. A importância de suportar a provação e a origem do bem (vv. 12-18)

1.6. Praticando a Palavra de Deus (vv. 19-27)



II. FÉ E OBRAS (CAP. 2)


2.1. Sobre a acepção de pessoas (vv. 1-13)

2.2. Fé e obras: uma combinação necessária à vida cristã (vv. 14-26)



III. SOBRE O REFREAR A LÍNGUA E A SABEDORIA QUE VEM DO ALTO (CAP. 3)


3.1. Um pequeno fogo que incendeia um tão grande bosque (vv. 1-12)

3.2. A sabedoria do alto (vv. 13-18)



IV. CONTENDAS, MALEDICÊNCIAS E A FALIBILIDADE DAS PERSPECTIVAS HUMANAS (CAP. 4)


4.1. Contendas e a humilhação diante de Deus (vv. 1-10)

4.2. O perigo da difamação (vv. 11,12)

4.3. A importância de se depender de Deus, sempre (vv. 13-17)



V. ORIENTAÇÕES DIVERSAS (CAP. 5)


5.1. As riquezas fora da vontade de Deus (vv. 1-6)

5.2. Paciência sob opressão (vv. 7-11)

5.3. Orientações diversas sobre o proceder cristão (vv. 12-20)



CONCLUSÃO


INTRODUÇÃO

Esta pequena epístola, sem dúvida, é um dos documentos mais importantes para o Cristianismo ao longo dos séculos. Martinho Lutero muito se equivocou ao referir-se à ela como "Epístola de Palha"[2]. Embora sua leitura tenha sido essencialmente cristológica, e justamente por não encontrar referências diretas a Cristo na epístola, ele a reputou como sendo de menor importância. Mas o fato é que Tiago tem um valor impreterível para o Novo Testamento e se constitui como um breve tratado sobre a prática da vida cristã. De forma simples, mas profundamente direta, Tiago, "servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo" (1.1), expõe questões vitais para a vida daqueles que professam amar ao Senhor e ao próximo. Em cinco capítulos, assuntos como sabedoria, a fé em tempos de tribulação, a observância da Palavra, a oração pelos enfermos, dentre outros, são tratados com uma singularidade extraordinária. Tiago é assim, uma importante e relevante e, por que não dizer, atual epístola.

I. PERSEVERANÇA E A OBSERVÂNCIA DA PALAVRA DE DEUS EM DIVERSOS ASPECTOS (CAP. 1).

1.1. Saudação e considerações iniciais (vv. 1,2).

Numa breve saudação, o autor se identifica: ele é Tiago, "servo de Deus e do Senhor Jesus" (1.1). Ele é, mui provavelmente, um dos apóstolos de Jesus, mas antes disso, é servo. Isto muito tem a nos ensinar, sem dúvida. A humildade e discrição do apóstolo fica evidente por toda a epístola. Ele não explora o fato de ser o irmão do Senhor, como se isso o colocasse numa posição privilegiada. Antes, pelo contrário, ele é servo e se refere aos seus leitores de modo afetuoso: "meus irmãos..." (1.2).

1.2. Adversidade que ensina (vv. 2-4).

O irmão do Senhor ensina que a aprovação depende da provação. Essa provação produz aprovação diante do Senhor. Em outras palavras, o sofrimento tem uma finalidade didática. Aqui, há um paralelo com a Primeira Epístola de Pedro[3] que também aborda o assunto do sofrimento, deixando claro que "se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais por praticardes o que é bom do que praticando o mal" (1 Pe 3.17).

1.3. A sabedoria que vem do alto (vv. 3-8).

Na Bíblia temos toda uma seção composta exclusivamente de livros de sabedoria, os chamados Livros Poéticos do Antigo Testamento. Mas é fato que o tema "Sabedoria" é tratado em diversas outras partes da Bíblia, como se pode ver aqui em Tiago 1.3-8.

1.4. Repreensão aos ricos opressores (vv. 9-11).

Tiago aqui chama a atenção para a brevidade da vida e que "o rico, na sua insignificância... passará como a flor da erva" (v. 10). O assunto é, num certo sentido, retomado em 2.1-13.

1.5. A importância de suportar a provação e a origem do bem (vv. 12-18).

A tentação não tem origem em Deus. Ela tem origem no próprio coração pervertido do homem. Este ensino presente em Tiago lembra o ensino do Mestre: "Pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez" (Mc 7.21,22).
Se o mau procede da inclinação pecaminosa do homem, "toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto" (v. 17), conforme ensina o apóstolo.

1.6. Praticando a Palavra de Deus (vv. 19-27).

É interessante que esta perícope esteja situada aqui, já que os versículos precedentes trouxeram algumas orientações justamente sobre a vida cristã verdadeira. Praticar a Palavra de Deus - "em vós implantada" (v. 20) - é a diferença entre ser ou não enganado por si mesmo (v. 22). Tiago usa as palavras "praticantes" e "lei". O pano de fundo está sendo preparado para o ensino seguinte que realçará a relação entre fé e obras: "Assim como o corpo sem espírito está morto, também a fé sem obras está morta" (2.26 - NVI).

II. FÉ E OBRAS (CAP. 2).

O capítulo dois da epístola de Tiago traz recomendações sobre o perigo de se fazer acepção de pessoas e o problema da fé sem obras. Certamente, este capítulo pode ser considerado "o capítulo dos contrastes", já que o apóstolo coloca lado a lado duas realidades atinentes à vida cristã que devem ser harmonizadas - pobres e ricos e fé e obras - mas que por vezes uma é sempre mais valorizada.

2.1. Sobre a acepção de pessoas (vv. 1-13).

O Evangelho dignifica o homem, e une os diferentes. Em Cristo não há judeu e nem gentio, bárbaro e cita, escravo e livre, "mas Cristo é tudo e está em todos" (Cl 3.11). Este ensino está presente também aqui, onde Tiago discorre sobre a importância de se tratar de forma igualitária pobres e ricos e no versículo nove é incisivo: "se, todavia, fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo arguidos pela lei como transgressores" (ARA).

2.2. Fé e obras: uma combinação necessária à vida cristã (vv. 14-26).

As obras são vistas aqui como resultado de uma fé viva. Tiago usa perguntas retóricas para iniciar o assunto, no versículo 14. A fé deve servir para demonstração da bondade ao semelhante, conforme os versículos 15 a 17. Timothy B. Cargal, teólogo pentecostal, faz o importante comentário a respeito dessa passagem:

Essa dupla preocupação por tudo de "bom" que a fé deveria proporcionar representa uma importante lembrança para a nossa cultura individualista. Fé não é apenas salvar a alma individual do julgamento eterno, mas também construir comunidades a fim de mostrar o amor de Deus não só no meio dos próprios crentes, mas também no mundo em que vivem[4].

Exemplos do Antigo Testamento são tomados para explicitar essa relação proposta por Tiago, indicando que esta verdade não é nova em Tiago, mas já vem desde tempos antigos. A fé verdadeira, mais do que simplesmente afirmada, é praticada, como o fizeram Abraão e Raabe, sendo aquele chamado de amigo de Deus.

III. SOBRE O REFREAR A LÍNGUA E A SABEDORIA QUE VEM DO ALTO (CAP. 3).

Novamente encontramos aqui um claro contraste: os perigos de uma língua não refreada e a sabedoria que vem do alto. Este texto demonstra algo fundamental, mas que por vezes não nos damos conta: a importância do discurso na condução da vida[5]. A vida e a morte podem estar aqui residindo e, portanto, todo cuidado é necessário.

3.1. Um pequeno fogo que incendeia um tão grande bosque (vv. 1-12).

O capítulo inicia com uma interessante advertência de Tiago no sentido de que "não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo" (v. 1), o que pode indicar que o ensino subsequente é na verdade um alerta quanto ao uso indevido da posição de professor ou mestre. Veja que no versículo seguinte, o dois, ele afirma que os mestres também erram e ele mesmo se inclui nesta declaração: "tropeçamos".
Desse modo, começa a chamar a atenção para o perigo do mau uso da língua, um "pequeno órgão" (v. 5), mas que é "mundo de iniquidade" (v. 6). Duas metáforas são usadas: a do leme e a do fogo. É retratada como sendo indomável e como uma fonte de onde brotam bênção e maldição. Tiago termina esta seção perguntando se é possível brotar água doce e amarga de uma mesma fonte e se pode a figueira dar azeitonas ou a videira figos (vv. 11,12). Perguntas retóricas usadas para ilustrar o ensino presente na passagem que aponta para a natureza da língua que precisa ser conformada com a sabedoria do alto.

3.2. A sabedoria do alto (vv. 13-18).

Alguém já escreveu que a verdadeira sabedoria orienta para a vida. Mais do que um acumulado de informações e saberes de diversos campos do conhecimento humano, a verdadeira sabedoria conduz, de forma prática.
A verdadeira sabedoria, conforme o ensino da presente epístola, é demonstrada em ações concretas no mundo, por meio de "mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder" (v. 13). Aqui reside uma beleza ímpar do Evangelho: a sua exigência quanto à um viver prático.
Tiago indica que há uma sabedoria que não procede do Pai, mas que é "terrena, animal e demoníaca" (v. 15). Essa sabedoria é contrastada com aquela que vem de Deus e produz  paz, é indulgente (ARA), isto é, cordata, que gera bons frutos, dentre outras características alistadas no versículo 17.

IV. CONTENDAS, MALEDICÊNCIAS E A FALIBILIDADE DAS PERSPECTIVAS HUMANAS (CAP. 4).

Este capítulo da Bíblia toca, de forma muito simples, mas vívida, a realidade das pessoas. Quem de nós nunca fez planos? E quem de nós nunca percebeu a presença do espírito faccioso, da inveja e de contendas entre irmãos? É preciso, como Igreja Brasileira, retornar ao puro e genuíno ensino presente neste texto.

4.1. Sobre contendas e a humilhação diante de Deus (vv. 1-10).

Os conflitos experimentados por uma igreja local são resultado, em grande medida, "dos prazeres que militam na vossa carne" (v. 1). Cargal (2003) chama nossa atenção para o fato de que

A característica de "staccato" (ou de "separação de frases") vista nas frases curtas dos versos 2 e 3 de Tiago, une-se à ausência daquela pontuação convencional da língua grega, tornando difícil o presente relacionamento entre suas ideias na tradução portuguesa. Talvez o melhor equilíbrio entre o estilo e as ideias seja alcançado traduzindo-se os versos em dois paralelos, onde a primeira linha de cada um representa as atitudes interiores que dão origem às ações apresentadas na segunda.

"Você deseja, mas não tem; então você mata.
Você tem inveja, mas é incapaz de conseguir;
então, você guerreia e peleja" (tradução pessoal do autor)[6].

De fato, nota-se neste capítulo uma alternância interessante de assuntos que vão sendo desenrolados por Tiago na medida em que vai avançando na sua linha de raciocínio. Ele fala da origem das pelejas entre irmãos, da cobiça, sobre o pedir incorretamente, a infidelidade para com Deus, o ciúme do Espírito Santo pelo crente, a sujeição a Deus e o achegar-se e humilhar-se perante Ele.

4.2. O perigo da difamação (vv. 11,12).

Aqui, Tiago comenta que o julgamento do próximo coloca o julgador na condição de juiz, mas Um só é o Juiz e Legislador, conforme se lê no versículo 12. Vale lembrar que para Tiago, os homens são feitos à semelhança de Deus e talvez por isto seja tão perigoso julgar o próximo (cf. 3.9).

4.3. A importância de se depender de Deus, sempre (vv. 13-17).

O homem por vezes se porta com arrogância e petulância, mas a vida humana é frágil e possui muitas limitações. Tiago é incisivo ao afirmar: "Vós não sabeis o que sucederá amanhã" (v. 14). A recomendação bíblica é depender do Senhor, confiar Nele. Isso é subentendido pela afirmação de Tiago: "Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser..." (v. 15).

V. ORIENTAÇÕES DIVERSAS (CAP. 5).

O último capítulo desta epístola traz várias recomendações preciosas e também advertências severas contra os ricos opressores. Ricos que oprimiam pobres para satisfazer seus próprios desejos impuros.

5.1. As riquezas fora da vontade de Deus (vv. 1-6).

Tiago denuncia com veemência os ricos que retinham os salários dos trabalhadores de forma fraudulenta (v. 4). A vida desses ricos foi regalada, cômoda, confortável. O apóstolo sai em defesa da justiça e da santidade no trato com o pobre.
Mais uma vez notamos nesta epístola uma mudança abrupta de assunto. Mas é válido mencionar que isto pode ser aparente, como se vê adiante.

5.2. Paciência sob opressão (vv. 7-11).

A partir do versículo sete, o apóstolo começa a convocar os seus leitores à que sejam pacientes face à opressão. Certamente ele está mudando o foco do seu ensino. Antes, os ricos opressores. Agora, os pobres oprimidos. Diante dessas injustiças e aflições, é preciso fortalecer o coração (v. 8). Os cristãos que o liam eram então lembrados de que outros irmãos, anteriores à eles, haviam sofrido muito, tanto quanto eles mesmos estavam sofrendo. Tiago cita os profetas no versículo 10 e o patriarca Jó, no vesículo 11, e conclui esta seção afirmando que "felizes os que perseveram firmes" (v. 11).

5.3. Orientações diversas sobre o proceder cristão (vv. 12-20).

Encontramos no versículo 12 a recomendação para que não se jurasse, e ele parece estar retomando aqui o ensino do Senhor Jesus (cf. Mt 5.33-37). A seguir recomenda que em casos de sofrimento e de doença, a solução é oração, e se alguém estava contente, que entoasse louvores ao Senhor (vv. 13-15). Este é um dos pouquíssimos textos neotestamentários onde se fala do uso do óleo da unção. Como se pode ver claramente, trata-se de uma situação específica, havendo critérios para o uso do óleo, e não da forma banalizada como vemos na Igreja Brasileira, hoje, infelizmente.
Deve haver confissão de pecados para que haja perdão e cura, uma vez que "muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo" (v. 16). Mais um santo do Antigo Testamento é citado, o profeta Elias, como exemplo de oração confiante no Senhor.

CONCLUSÃO

A epístola de Tiago, assim como as demais do Novo Testamento, é extremamente atual. A despeito dos distanciamentos hermenêuticos que possamos encontrar nela, o que é perfeitamente natural em qualquer texto bíblico, esta epístola toca diretamente na vida concreta do cristão individualmente e da igreja em sua coletividade. Problemas destacados e tratados por Tiago são também problemas que enfrentamos hoje. E a saídas por ele indicadas também continuam sendo as mesmas para nós, no século 21.

REFERÊNCIAS

ARRINGTON, French L. STRONSTAD, Roger (ed.s.). Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento.  Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
Bíblia Shedd. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição rev. e atualizada no Brasil. 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova; Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1997.
BRUCE, F. F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. Trad.: Valdemar Kroker. São Paulo: 2009.
CHAMPLIN, Russell N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 6. São Paulo: Candeia, 1991.



[1] Graduado em Teologia, possui formação em Psicanálise Clínica, pós-graduado em Psicopedagogia Clínica e Institucional, Mestre em Teologia pelas Faculdades Batista do Paraná (FABAPAR) e atua como docente e coordenador pedagógica na Faculdade Brasileira (FABRA). E-mail: roneyricardoteologia@gmail.com.
[2] A despeito desta referência à epístola de Tiago, Lutero não proibiu a outros de a usarem e nem que fossem livres para pensar da epístola o que bem pensassem: cf. CHAMPLIN, Russell N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 6. São Paulo: Candeia, 1991, p. 529.
[3] Como há em diversos outros exemplos, conforme indica Champlin: cf. CHAMPLIN, Russell N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 3. São Paulo: Candeia, 1991, p. 535.
[4] CARGAL, Timothy B. in: ARRINGTON, French L. STRONSTAD, Roger (ed.s.). Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento.  Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 1.673.
[5] Ver ARRINGTON. STRONSTAD, 2003, p. 1.677.
[6] ARRINGTON. STRONSTAD, 2003, p. 1.680.

O COACHING CRISTÃO É UM PROBLEMA?


O coaching cristão é um problema? Creio que sim, mas a idolatria presbiteriana a Calvino também o é. O excesso de citações de Ellen G. White, que sobrepuja a própria Bíblia, também o é. A overdose de santidade assembleiana também o é. O formalismo religioso e o legalismo das igrejas tradicionais e históricas também são problemas sérios para a vida cristã genuína. Enfim, no final, talvez o nosso problema maior seja a nossa incapacidade de olhar para dentro e tratar de nossos próprios problemas e parar de policiar outros seguimentos cristãos. Acredito piamente que a simples exposição da verdade bíblica é suficiente e poderosa para nos conduzir a uma vida cristã equilibrada. As Escrituras são suficientes e nossa vigilância punitiva só divide, e não acrescenta nada.

sábado, 11 de abril de 2020

ENCICLOPÉDIA TEOLÓGICA: NUMA PERSPECTIVA TRANSDISCIPLINAR (EM DOIS VOLUMES)




COZZER, Roney Ricardo. Enciclopédia Teológica: numa perspectiva transdisciplinar. vol.s. 1 e 2. São Paulo: Editora Reflexão, 2020.

DESCRIÇÃO DA OBRA

O que você encontrará nesta Enciclopédia Teológica: numa perspectiva transdisciplinar? Ao longo de mais de uma década, o autor foi reunindo informações e também criando, ele mesmo, "ferramentas" para facilitar seu trabalho de pesquisa e consulta permanente. Agora, alegremente, ele compartilha com o leitor e leitora esse conteúdo e "ferramentas", como artigos, verbetes, o Índice Temático, dentre outros conteúdos.

Artigos e verbetes

São quase 300 ao todo! O autor aborda, de modo transdisciplinar, temas da Teologia, Pedagogia, Didática, História, Filosofia, Psicanálise, Psicologia e de outras áreas de conhecimento.

Cronologias

O autor oferece cronologias resumidas e dinâmicas da História bíblia e da História Eclesiástica, contendo o registro de eventos fundamentais que auxiliam o leitor e a leitora na compreensão da sequência dos fatos que envolveram a História bíblica e do Cristianismo.

Esboços de Sermões e Palestras 

São mais de 30, construídos com embasamento bibliográfico de qualidade e sempre contextualizados. Numa época em que as homilias se mostram cada vez mais empobrecidas, o leitor e a leitora se surpreenderão com os conteúdos oferecidos e com os temas apresentados. Esses esboços servem para auxiliar pregadores, pastores, educadores cristãos e estudantes da Bíblia.

Índice temático

Uma espécie de catálogo de obras que foram relacionadas pelo autor. Como o Índice funciona? É simples (mas muito eficiente para a pesquisa): imagine que você deseja pesquisar sobre Teologia Bíblica, por exemplo, mas não sabe exatamente por quais obras começar. Nesse Índice, você encontrará obras alistadas dentro desta área específica de conhecimento e de muitas outras. Por vezes, o autor não apenas indica qual obra ou quais obras consultar, mas até mesmo a sequência de páginas a serem consultadas. 

Além desses recursos, a obra também oferece textos devocionais, informações de cunho biográfico sobre personagens da História da Igreja, abordagens atuais sobre temas relevantes, tudo isso ao longo de mais de duas mil páginas!

FICHA TÉCNICA

ISBN (volume 1): 9788580884425
ISBN (volume 2): 9788580884432
Formato: 16 x 23 cm
Páginas (volume 1): 1005
Páginas (volume 2): 841
Editora: Reflexão
Autor: Roney Cozzer
Link para aquisição: clique aqui para adquirir






EXEGESE BÍBLICA: PLANO DE ENSINO

PLANO DE ENSINO DISCIPLINA Exegese bíblica PROFESSOR Me. Roney Cozzer Currículo Lattes e produção bibliográfica . BIBLIOGRAFIA WEGNER, Uwe....