quinta-feira, 23 de setembro de 2021

O VALOR DA MELANCOLIA

 


Já faz um bom tempo que venho pensando em escrever algo sobre o valor da melancolia e sobre o valor da tristeza típica que sempre a acompanha. Para mim, é fantástico escrever e refletir sobre algo que geralmente empurramos para debaixo do tapete. Se bem que no meu caso, tapete e melancolia são duas coisas que ficam bem distantes uma da outra. Melancolia e nostalgia tornaram-se duas amigas inseparáveis e íntimas de mim ao longo do tempo. E não tenho vergonha disto. Quem é mais próximo de mim sabe disto e me aceita melancólico como sou. Melancólicos também são criações de Deus.

Há um lado positivo nisto que merece ser destacado: o reconhecimento do próprio temperamento. O conhecimento das características típicas de cada um dos quatro temperamentos, a saber: colérico, sanguíneo, fleumático e melancólico, é importante para a redução de caricaturas e preconceitos que se estabelecem tantas vezes em nossos círculos sociais. Cada temperamento tem suas especificidades e quando o assunto é temperamento, não se devem estabelecer avaliações do tipo “este é melhor e aquele é pior”. Os temperamentos devem ser considerados em termos de prós e contras, vantagens e desvantagens.

Para muitas pessoas, a simples menção e reconhecimento público de que se é melancólico, já e suficiente para gerar narizes torcidos e olhares suspeitos. Quando falo sobre isto em público percebo que algumas pessoas até chegam a pensar que “melancolia” é sinônimo de doença. Mas é como dizem: O desconhecimento gera preconceitos…

Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, acertou em cheio ao avaliar nosso tempo (como sempre!) quando comenta a respeito da incapacidade do sujeito pós-moderno de ficar a sós consigo mesmo. Afirma Bauman: “Nesse nosso mundo sempre desconhecido, imprevisível, que constantemente nos surpreende, a perspectiva de ficar sozinho pode ser tenebrosa; é possível citar muitas razões para conceber a solidão como uma situação extremamente incômoda, ameaçadora e aterrorizante” (BAUMAN, Zygmunt. 44 cartas do mundo líquido moderno. Trad.: Vera Pereira. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 14). Tenho a impressão de que a minha geração já não sabe muito bem o que é isto, e as novas então… Nesta hora é preciso considerar alguns fatores.

Nossa vida acelerada e sempre agitada tem nos levado à incapacidade de conviver. E isto tem relação com esta incapacidade de ficar a sós consigo mesmo. Só convivemos bem quando nos conhecemos bem, e só nos conhecemos bem ficando a sós consigo mesmo. O autoconhecimento é também o caminho para a sabedoria e para a saúde emocional. As pessoas na Pós-modernidade, enganadas pelo discurso da “autossatisfação sempre”, fomentado pelo consumismo que as consome, caem na ilusão de que para viver bem precisam estar sorrindo o tempo todo, sempre em pé, radiantes. A vida ideal poderia ser resumida naquela exclamação tão cara para nós, evangélicos: “Só vitória!” Meu Deus! Quanta ilusão! Desconfie de quem está sempre pronto, sempre bem, sempre sorridente, sempre santo, sempre com tudo "certinho". Sim, desconfie de pessoas assim. Em geral elas escondem um monstro. Uma coisa tenho aprendido ao longo da vida: O ser humano é um ser imperfeito e sempre terá problemas em todas as esferas de sua existência.

A melancolia, com a tristeza que traz, possibilita algumas coisas incríveis que a vida agitada da Pós-modernidade vem tirando de nós. Elementos que são vitais para este autoconhecimento que aqui menciono. São eles: a possibilidade de sair de cena, de ficar sozinho com você mesmo, de respirar. Possibilita a reflexão sobre quem temos sido até aqui, o que realmente queremos, o que estamos fazendo e para onde estamos indo. Minha amiga melancolia constantemente me faz lembrar pessoas queridas que se foram e outras que nem se foram, mas que pela agitação da vida permito ficarem longes de mim. Numa era em que o outro já não importa mais, e em que nossa agenda só inclui reuniões e não mais pessoas, sentir saudades de pessoas especiais pode significar o resgate da alteridade, pode ser a recuperação da capacidade de conviver. Acredito que de algum modo, minha melancolia me torna uma pessoa melhor.

Para aqueles que detestam a tristeza e a melancolia, é preciso lembrar que grandes personalidades, que grandes contribuições trouxeram à humanidade, eram pessoas profundamente melancólicas. É claro que sua capacidade não se deve exclusivamente ao fato de terem sido melancólicas, mas a melancolia sem dúvida muito ajudou. Personalidades melancólicas são encontradas em todas as áreas: na Teologia, na Literatura, na Arte, na Música. Legaram-nos obras magníficas, peças extraordinárias, poemas tocantes, reflexões profundas e sons envolventes que foram, sem dúvida, resultado de horas e dias no "fosso" proporcionado pela melancolia.

E claro, não poderia deixar de reconhecer os desafios inerentes de um temperamento melancólico. Minha ciclotomia me assusta, eu admito. Minha obsessão pelo vazio e pelo que falta chegam a ser, de fato, incômodos. E o envolvimento emocional, então, não tem nada de típico: É tudo ou nada, é intenso, precisa ser de verdade. Polidez demais me assusta; formalidade em excesso me afasta. Ah! Eu e meu hábito de insistir em ver a alma das pessoas… Isto às vezes me faz tão bem, mas às vezes me destrói… 

A sensibilidade que carrego tem sido uma autoestrada de ajuda para muitos, mas por vezes, o que não toca ninguém é suficiente para me jogar precipício abaixo… O olhar distante não é o reflexo de uma alma violenta, apenas reflete o voo indomável da minha mente que me torna autônomo, inquieto, inquiridor, submisso mas não manipulável e isto me faz sofrer numa sociedade que oprime, que move pessoas como se move peças num jogo de xadrez. Desse modo sigo, sentindo-me absurdamente estranho neste mundo, e ao mesmo tempo, absurdamente normal. Nada de interessante, apenas alguém que se interessa pelo que não é tão interessante. 

Detalhes me saltam à vista, e o “não dito” grita aos meus ouvidos. A realidade de fato me assusta algumas vezes e me refugio, em alguns momentos, na companhia das ilusões, do fantasioso, do ideal. Desse refúgio retorno à realidade, de certo modo revigorado, e pronto para seguir em frente, afinal, quem não tem ideais, ilusões e utopias não tem razão para avançar. Procuro usar tudo isto para ser melhor, para errar menos, numa vida em que o erro é inerente. Permito, assim, que a melancolia chegue, seu lugar já está reservado. Eu a ouvirei outra vez, como das vezes passadas, pois ouvi-la, significa ouvir a mim mesmo, significa ouvir os outros, significa ouvir o cicio suave e tranquilo que uma vida agitada não permite ouvir.

Já sei o que você deve estar pensando: “Que sujeito esquisito esse!” 

Sou tentado a concordar…

Roney Cozzer… com melancolia, é claro.

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