terça-feira, 28 de julho de 2026

Felicidade


Por Roney Cozzer

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Três - é o número de vezes que assisti esse filme. E em todas elas eu chorei. Na última vez assisti junto com minha filha, mas o plano era não chorar, não na frente dela. Mas o fato é que a cena do diálogo entre o filho e a mãe me despedaçou... outra vez mais. Não me contive: chorei copiosamente! Minha filha me amparou. 

O recomeço é - para mim - mais que um filme: uma obra de arte que faz jus à Sétima Arte. Um filme simples de 2011, tipicamente estadunidense, daqueles que se dão no universo do futebol americano praticado naquelas cidadezinhas de interior dos Estados Unidos. Me faz lembrar sempre Meu nome é Rádio, outra obra de arte do cinema. 

O recomeço toca em questões muito profundas para mim e para muitos, ele traz em si uma carga existencial colossal e conseguiu provocar em mim uma experiência que algumas poucas situações ao longo da minha vida conseguiram: chorar muito. Chorei assim há muitos anos segurando a mão de minha mãe, numa conversa à mesa com ela; também quando meu pai faleceu; em oração, várias vezes e em algumas outras poucas situações. E filmes que me fizeram chorar, pelo que me lembro, apenas três, nessa ordem: A Lista de Schindler, Meu nome é Rádio e O recomeço, mas nenhum me quebrou tanto quanto O recomeço.

Para mim, a grande beleza desse filme é que ele evidencia, de uma forma singular, com diálogos de alto nível, que mesmo tendo a possibilidade de viver a vida de outra forma, talvez optaríamos por viver exatamente a nossa vida, se aprendêssemos a valorizar as coisas simples que estão presentes nela, que a constituem, mas que simplesmente ignoramos por estarmos sempre em busca de outras coisas como sucesso, popularidade, dinheiro, sexo... O filme é genial! 

O filme escancara o "óbvio não percebido", e não percebido talvez pela maioria das pessoas. O recomeço nos ensina que o dinheiro pode comprar uma mansão, mas não um lar; nos lembra que há pessoas que enfrentam dificuldades brutais para que tenhamos melhor qualidade de vida (a mãe que trabalha numa fábrica); ensina também que fama pode atrair mulheres, mas não uma parceira de vida que enfrenta junto as maiores dificuldades com amor e graça (a esposa Macy que cuidou de Murphy quando ele se lesionou e que permanece ao seu lado, depois, numa vida simples no campo); que o reconhecimento que importa é aquele que vem de gente que acompanha nossa trajetória e torce por nós (a comunidade local que torce pelo time), e não de estranhos. O recomeço ensina que o verdadeiro "eu" não é o que se apresenta perante a multidão (num estádio de futebol), mas sim aquele que deseja cuidar e amar - a mãe diz ao filho jogador de futebol famoso na cidadezinha: "Mas eu tenho orgulho de você, não do 'senhor futebol'".

É interessante para mim constatar que um dos melhores sabores que já apreciei em minha vida de 42 anos não foi em um bom restaurante, cujos pratos tivessem preços consideráveis, mas sim aquele feijão preto que tinha acabado de ser cozido com uma cebola inteira dentro da panela de pressão, feito pela minha mãe, em casa, num dia comum, como qualquer outro. E parece que ainda posso sentir o sabor... Décadas depois e eu aqui me lembrando de um episódio trivial, do dia a dia, mas que me marcou.

Ao longo da minha vida, obtive expressivas conquistas pessoais, das quais me alegro muito e pelas quais sou muito grato a Deus; vivi momentos memoráveis, eu diria. Mas é interessante para mim pensar que, quando recordo momentos felizes, os que de forma mais imediata e recorrente me vem à mente são aqueles em que estive com pessoas amadas, algumas das quais já se foram e deixaram muita saudade, fazendo coisas simples e alegres, daquelas que a gente só consegue fazer quando está na companhia de quem a gente ama.

Brincadeiras, boas gargalhadas, emoção, lágrimas, momentos cúlticos, conversas profundas e conversa fiada, compartilhamento de sonhos, comida à mesa, caminhada ao ar livre e outras práticas, realizadas com pessoas importantes, ações assim que tantas lembranças constituíram, é o que me trouxe e me traz tanta felicidade. E pensar que isso não custa um centavo sequer... 

O que não percebemos, por vezes, é que o essencial para sermos felizes está, quase sempre, bem diante do nosso nariz. Quando terminei de assistir o filme pela terceira vez com minha filha, disse a ela que eu era grato pela vida que vivi até aqui, pois foi essa vida, inclusive, que me trouxe ela, minha filha amada. Me senti motivado a viver a vida como ela é, explorando justamente a sua beleza não percebida; beleza que é enuviada em nossos dias pela ansiedade, ganância, obsessão por mais e mais produtividade, aceleração, notificações e tela sem fim...  

Ontem fui soltar pipa com meu enteado amado, Josué; a noite, encarei demoradamente o rosto da minha noiva, Márcia - fiquei apreciando a sua beleza e o seu jeitinho meigo de ser; na semana passada assisti um filme incrível com minha filha amada, Ester... Acho que estou aprendendo o que é felicidade e estou feliz nesse aprendizado... Sigo sonhando, mas apreciando a beleza do que me é dado gratuitamente e buscando desfrutar disso da melhor forma. O essencial é o que me basta e o que me faz feliz.


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