domingo, 13 de agosto de 2023

Francis A. Schaeffer: vida, obra e crítica possível ao seu pensamento ✒️

Imagem: Francis A. Schaeffer (1912-1984)
Fonte: Quem foi Francis Schaeffer? Cruciforme. [Site]. Disponível em: <https://cruciforme.com.br/quem-foi-francis-schaeffer/>. Acesso em 13 ago. 2023.


Por Roney Cozzer, doutorando em Teologia Sistemático-Pastoral (PUC Rio) e licenciando em História (Faculdade Católica Paulista).

Fonte: COZZER, Roney R. Doutrinas Bíblicas. Instituto Teológico Quadrangular [obra não publicada]. O texto foi revisado e contou com algumas leves inserções em 13 de agosto de 2023, quando da sua postagem aqui.


Vida e obra de Francis A. Schaeffer

Francis August Schaeffer foi, muito provavelmente, um dos teólogos mais brilhantes do século 20. Esta afirmação pode parecer exagero a princípio, mas quando nos debruçamos sobre sua obra logo percebemos que se trata de uma conclusão justa. Sempre muito lembrado no campo da Apologética, Schaeffer se colocou como uma das vozes teológicas mais conservadoras de seu tempo. 

No Brasil, várias obras suas foram traduzidas e continuam sendo publicadas. Um livro pequeno de Schaeffer, mas que se coloca como uma das obras que mais marcou o contexto protestante no século 20, foi A morte da razão. Mas há outras obras do pensador cristão norte-americano.

Schaeffer teria completado 100 anos de idade em 2012 caso estivesse vivo. Ele nasceu em 1912, em 30 de janeiro daquele ano e veio a falecer em 1984. Oriundo de uma família secularizada, em Germantown, na Pennsylvania. A mundialmente conhecida Revista Times o descreveu como o “Apóstolo dos intelectuais” em 11 de janeiro de 1960 (CARVALHO, Guilherme de. Francis Schaeffer para o século 21. Disponível em: <https://ultimato.com.br/sites/guilhermedecarvalho/2012/02/08/francis-schaeffer-para-o-seculo-21/#more-161> Acesso em 26 ago. 2019).

O pensamento de Schaeffer, como é típico do pensamento dos grandes intelectuais da Teologia, provoca reações críticas também, e não apenas admiração. Guilherme de Carvalho comenta: "Estou com os que consideram Schaeffer crucial para a igreja evangélica brasileira no século XXI, e não se trata de provocação saudosista; na verdade eu mesmo não pertenço à geração de Schaeffer, nem às gerações imediatamente posteriores. Eu acabei de chegar. Mas alguns dos primeiros leitores de Schaeffer, que reconheceram sua atualidade – há quarenta, trinta, vinte anos atrás – agora estão certos de que Schaeffer é passado. “Schaeffer descrevia uma condição ainda moderna, superada pela Pós- Modernidade”, já ouvi. Alega-se que sua ênfase na “verdade verdadeira” (true truth) denuncia uma visão racionalista da revelação, que ele seria biblicista, que tentar misturar religião com tudo seria 'integrismo religioso'" (CARVALHO, Guilherme de. Francis Schaeffer para o século 21. Disponível em: <https://ultimato.com.br/sites/guilhermedecarvalho/2012/02/08/francis-schaeffer-para-o-seculo-21/#more-161> Acesso em 26 ago. 2019).

Schaeffer pastoreou igrejas na Pensilvânia e no Missouri, vindo depois a mudar-se para a Europa, atuando juntamente com sua esposa como missionários na Suíça, em 1948. Ele se casou em 26 de julho de 1935 com Edith Sevilha que mais tarde afirmaria que a razão de Schaeffer ter se preocupado tanto com a Bíblia foi pelo fato de que ele, ainda muito jovem, encontrou respostas para questões existenciais consultando diretamente a Bíblia (FERREIRA, Franklin. Francis Schaeffer: “levando cativo todo o pensamento”. Disponível em: <https://www.labri.org.br/francis-schaffer> Acesso em 26 ago. 2019).

Schaeffer foi o primeiro ministro ordenado pela Igreja Presbiteriana da Bíblia, e fez seus estudos no Faith Theological Seminary, conforme informa o historiador Justo L. González (GONZÁLEZ, 2008, p. 571). Um fato importante sobre a história de Francis Schaeffer é que ele, juntamente com sua esposa Edith, fundou o L’Arbri, em 1955. O L’Arbri, conforme explica González, trata-se de um “[...] centro de estudos teológicos para jovens universitários e outras pessoas em busca da relação entre a fé e o mundo secular” (GONZÁLEZ, 2008, p. 571). 

Uma das maiores contribuições de Schaeffer foi em relação à posição das Escrituras: ele a defendeu, num profundo comprometimento com ela, apontando-a como Palavra inspirada de Deus, como a revelação de Deus à humanidade. Ao lermos as obras de Schaeffer, de algum modo encontramos refletida nelas a busca do autor pelo sentido real da existência, que ele encontrou em Deus. Essa verdade, essa revelação de Deus, que dá sentido à existência humana, precisa ser comunicada ao mundo. Não se trata de apenas confessar a fé cristã. A Igreja precisa transbordar a simples confissão; ela deve se preocupar em comunicar, de maneira eficaz, as verdades da fé cristã a um mundo marcado pelo desespero.

Outra contribuição fundamental da obra de Schaeffer para a Igreja, que de certo modo o torna sempre atual, é que a Igreja só será capaz de comunicar eficazmente o evangelho ao homem moderno se ela entender como ele pensa. É claro que Schaeffer está escrevendo para a Modernidade, um tempo com características diferentes do nosso tempo, a Pós-Modernidade. Todavia, a ideia de entender a época para então poder comunicar uma mensagem é, sem dúvida, uma percepção fantástica! Curiosamente, a Igreja na Pós-Modernidade continua cometendo esse erro básico enquanto sustenta discursos e doutrinas que não fazem o menor sentido ao indivíduo contemporâneo. 

O conhecimento da cultura contemporânea é um passo para que se possa comunicar o evangelho. Naturalmente, encarando a cultura humana pelas lentes da cosmovisão cristã, o entendimento será de que essa cultura está corrompida, caída, por causa do pecado. E a percepção de Schaeffer foi justamente esta. Uma obra fundamental de Schaeffer quanto à isto é A morte da razão que, aqui, servirá para nortear este excurso no pensamento do “apóstolo aos intelectuais”.

O livro Escape from reason, traduzido no Brasil como A morte da razão (Primeira edição em 1974), é uma obra que permite uma excelente introdução ao pensamento de Schaeffer e aqui a utilizo como norteadora para prosseguirmos no estudo sobre ele. É claro que apenas ler um livro de Francis Schaeffer, neste caso em particular, A morte da razão, não é suficiente para entender o conjunto da obra desse autor, mas como dito acima, é um bom a priori.

O livro está estruturado em sete capítulos e não se coloca como uma obra volumosa. Na verdade, chega mesmo a ser um livreto. Todavia, não se pode negar que seu impacto no mundo cristão ainda pode ser sentido em pleno século 21 (ainda que Schaeffer estivesse escrevendo para a Modernidade). No prefácio à obra, Schaeffer já dá a entender do que tratará no decurso das linhas que se seguirão: "Se alguém vai passar uma longa temporada no exterior, é de se esperar que aprenda a língua do país a que se destina. Mais do que isso, entretanto, faz-se necessário ele poder realmente comunicar-se com aqueles no meio dos quais viverá. Impõe-se-lhe aprender ainda outra língua – a das formas de pensamento das pessoas com quem falará. É somente assim que conseguirá real comunicação com elas e a elas. O mesmo se dá com a Igreja Cristã. Sua responsabilidade não é apenas professar os princípios básicos da fé cristã, à luz das Escrituras; cumpre-lhe comunicar estas verdades imutáveis à geração em que se situa" (SCHAEFFER, Francis. A morte da razão. 4ª ed. São Paulo: Editora Fiel, 1986, p. 05).

O pensamento acima pode ser considerado uma espécie de “fio condutor” que guiará Schaeffer na construção dessa obra. É um pensamento recorrente e que funciona como base fundante da reflexão proposta por Schaeffer nesta e em outras de suas obras. E vale ressaltar ainda que Schaeffer está tentando comunicar um pensamento que, na verdade, reflete uma compreensão da realidade que o cerca e que envolve os cristãos. Sua obra tem, assim, um viés prático e não apenas teórico.

Schaeffer não foge à regra de outros grandes intelectuais do universo teológico no sentido de que estivessem buscando pontos de contato para comunicar o evangelho ao homem contemporâneo, à semelhança de Bultmann e Tillich. Talvez seja mais justo afirmar que, no caso de Schaeffer, ele o faz mantendo-se claramente dentro de uma tradição cristã conservadora, o que fica evidente pelas convicções que ele manifesta. 

Schaeffer defende a necessidade de se perceber as relações existentes entre Teologia, Filosofia e Arte. São produções humanas e mantêm certa correlação (SCHAEFFER, 1986, p. 10). Schaeffer propõe, já de partida, uma espécie de diagrama, elaborado para indicar a correlação entre graça e natureza e ele fala de uma espécie de “linha divisória” entre essas duas instâncias ou realidades. O que ele propõe é que a Arte, a Filosofia e a própria Teologia podem estar abaixo dessa linha – e estão, de fato, abaixo dessa linha muitas vezes.

Schaeffer irá apresentar essas mesmas bases conceituais também em outra obra importante, O Deus que intervém, onde recorre a vários dos princípios que ele formula em A morte da razão. Ele discorre sobre a autonomia que se estabelece em relação à graça. Noutras palavras, o que Schaeffer está tentando comunicar é que a natureza, que possui coisas belas, vai se afastando da graça de Deus num processo autônomo. Ele discorre em termos de “natureza versus graça” (“O princípio vital a notar-se é que, à medida que a natureza se fazia autônoma, passava a “devorar” a graça. Através da Renascença, de Dante a Miguel Ângelo, gradualmente a natureza se fez mais inteiramente autônoma. Ela libertou-se de Deus à medida que os filósofos humanistas começaram a operar cada vez mais à vontade. Quando a Renascença chegou ao seu clímax, a natureza havia devorado a graça” [SCHAEFFER, 1986, p. 11]).

Schaeffer, em A morte da razão (1986), parece indicar a morte da graça (e da razão) numa certa progressão histórica. E o faz indicando obras de arte pontuais e ele enxerga essa “morte” não apenas na Arte, mas também na Filosofia e na própria Teologia. Mais adiante, nesta mesma obra, irá discorrer sobre o cinema e a Televisão. No final desse livro, ele então fala da morte da racionalidade.

No capítulo de número dois da obra, Schaeffer menciona as Institutas de Calvino, escritas em 1536, e endereçadas a um monarca francês chamado Francisco 1. A Reforma Protestante contribuiu assim para que se resgatassem valores importantes para a fé cristã, como a dependência total do homem de Deus para sua salvação. ‘[...] Declararam os Reformadores que nada há que possa o homem fazer; nenhum esforço humano moral ou religioso, humanista ou autônomo pode ajudar. Somos salvos unicamente à base da obra consumada de Cristo, quando morreu no espaço e no tempo na história, e o único meio de obter a salvação é elevar as mãos vazias da fé e, pela graça de Deus, aceitar o dom gratuito de Deus – a Fé somente’ (SCHAEFFER, 1986, p. 19). 

Schaeffer entendeu que a moderna tendência na Teologia era não enfatizar a suficiência das Escrituras. Ele afirma que Deus se deu a conhecer ao homem através das Escrituras das quais podemos obter “conhecimento verdadeiro e unificado”, para falar em suas próprias palavras (SCHAEFFER, 1986, p. 20). Essa compreensão de Schaeffer pode ser bem percebida em sua fala no seu sermão intitulado O manifesto cristão (SCHAEFFER, Francis A. O manifesto cristão. [vídeo]. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?time_continue=108&v=2oG1VQ1HyvM> Acesso em 13 set. 2019). Em sua fala, ele afirma que diversos problemas que assolam a humanidade, como o aborto, pornografia, eutanásia, dentre outros, são resultados de uma mudança muito profunda de paradigma onde ganha espaço uma visão humanista em lugar de uma visão ou cosmovisão judaico-cristã.

Schaeffer afirma que Deus, por meio das Escrituras, nos diz quem é o homem é. Ele lança perguntas lancinantes: ‘Não podemos tratar as pessoas como seres humanos, não podemos vê-las no alto nível da verdadeira humanidade, a menos que conheçamos realmente a sua origem – quem são. Deus diz ao homem quem ele é. Deus nos declara que Ele criou o homem à própria imagem. Portanto, o ser humano é algo maravilhoso.

Deus, entretanto, nos diz algo mais a respeito do homem – fala-nos acerca da Queda. Isto introduz o outro elemento que precisamos conhecer a fim de entendermos o ser humano. Por que é, a um tempo, criatura tão maravilhosa e tão degradada? Quem é o homem? Quem sou eu? Por que pode o homem realizar estas coisas que o fazem único, no entanto, por que é ele tão horrível? Por quê?’ (SCHAEFFER, 1986, p. 21).

Schaeffer destaca a realidade da queda do homem e de sua marcha para o Inferno em rebelião contra Deus. Salienta, todavia, que os reformadores obtiveram um conhecimento unificado a respeito da graça e da natureza, e da revelação de Deus. Noutras palavras, eles conseguiram uma espécie de unificação entre o “andar de cima” e o “andar de baixo”.

Ainda outro ponto que eu diria também fundamental no pensamento de Schaeffer é que ele sustenta, enfaticamente, que a Bíblia nos apresenta Deus como um Ser pessoal que procura relacionar-se com o homem. “[...] Este é o tipo de Deus que está “presente”, que existe. Ademais, este é o único sistema, a única religião, que aceita Deus com estas características. Os deuses orientais são infinitos por definição, na acepção de que a tudo abarcam – o bem tanto quanto o mal – contudo, não são pessoais” (SCHAEFFER, 1986, p. 24).

Schaeffer está contrastando a fé cristã bíblica e histórica com outras crenças no mundo e pode-se até mesmo afirmar, que de certo modo, com outros sistemas filosóficos, a fim de realçar a verdade cristã a respeito do evangelho de Cristo (Ainda que este esforço encontre limites até certo ponto, muito claros, como procuraremos indicar adiante). E nesse esforço ele insiste que o homem foi criado um ser pessoal, sendo finito, mas que pode relacionar-se com o Deus que também é pessoal, mas infinito. Ele afirma: “Não somos infinitos, somos finitos; não obstante, somos plenamente pessoais, somos feitos à imagem do Deus pessoal que existe” (SCHAEFFER, 1986, p. 26).

Como podemos perceber, o pensamento de Schaeffer tem como “viga mestra” a ideia de que sem Deus, o mundo não faz sentido, a vida humana não faz sentido e a Filosofia não cristã não consegue responder eficazmente aos grandes dilemas da vida. Schaeffer foi muito influenciado pelo apologista cristão proposicional Cornélius Van Til. O teólogo brasileiro Franklin Ferreira comenta o seguinte: ‘Cornélius Van Til foi o grande responsável pela tentativa de mudar o foco do debate com pensadores não-cristãos sobre a existência de Deus e a validade das reinvindicações cristãs, focalizando-o na viabilidade e na coerência das posições não-cristãs. Ele argumentou que o pensamento não-cristão não passa de uma tentativa de fugir de Deus. Van Til era um apologista proposicional. Essa abordagem reconhece que nenhum fato, histórico ou não, pode ser interpretado de maneira coerente sem pressupor a fé no Deus trino – infinito e pessoal –, como revelado na Escritura’ (FERREIRA, Franklin. Francis Schaeffer: “levando cativo todo o pensamento”. Disponível em: <https://www.labri.org.br/francis-schaffer> Acesso em 26 ago. 2019).

O pressuposto básico de Van Til (e de Schaeffer) é que o nosso pensamento seja modelado pelos pressupostos básicos das Escrituras. Nosso entendimento da mensagem das Escrituras depende dessa submissão. Schaeffer entendia a necessidade de interpretar o mundo e a vida a partir de uma cosmovisão, e defendeu que a cosmovisão adequada era a cristã. Ferreira afirma que Schaeffer “[...] acreditava que as pessoas procuravam uma fuga da razão. Como consequência, todas as cosmovisões não-cristãs são incoerentes” (FERREIRA, Franklin. Francis Schaeffer: “levando cativo todo o pensamento”. Disponível em: <https://www.labri.org.br/francis-schaffer> Acesso em 26 ago. 2019). Tal entendimento é refletido nas obras de Francis Schaeffer, uma delas aqui bastante citada, A morte da razão, de 1986, e ainda, O Deus que intervém (2009).


Crítica possível ao pensamento de Schaeffer

No prefácio ao seu livro A morte da razão (1986), Francis Schaeffer afirma que para comunicarmos eficazmente a mensagem cristã será necessário entender as formas de pensamento da nossa geração. Em suas próprias palavras, “[...] diferirão elas ligeiramente de lugar para lugar, e em maior grau de nação para nação. Contudo, características há de uma época tal em que vivemos que são as mesmas onde quer que nos achemos” (SCHAEFFER, 1986, p. 05).

Conquanto Schaeffer tenha deixado para a Igreja uma contribuição ímpar no sentido de nos levar ao reconhecimento da necessidade de entender como pensa o homem contemporâneo, ou, como pensa a nossa geração, sua visão muito uniformizada da realidade humana nos parece muitíssimo equivocada, mesmo que ele estivesse escrevendo para a Modernidade, mas reconhecendo que se tratava de uma era em mudança (ainda que ele tenha produzido seu pensamento às portas da Pós-Modernidade e já sentindo seus impactos. Existe discussão sobre quando inicia a Pós-Modernidade. A expressão “Pós-Modernidade” foi usada para referir-se a uma época pela primeira vez no início do século 20, na década de 1930. A reflexão em torno do que vem a ser a Pós-Modernidade, permanece com várias propostas, ausência de unanimidade e com abundância de utilização da expressão "Pós-modernidade").

Parece ficar implícito na afirmação de Schaeffer, quanto à questão dessa univocidade que ele menciona, que a sua leitura acabou não considerando o fato de que o Oriente, que vivenciava uma realidade estruturalmente diferente do Ocidente, representava em seu tempo um outro panorama histórico, religioso e cultural que contradiria o seu pressuposto básico. Ocidente e Oriente constituem duas realidades sociais, religiosas, culturais, antropológicas, étnicas e historicamente diferentes e até divergentes. Não se trata, pois, de formas de pensamento que, como ele afirmou, diferiam “ligeiramente” de lugar para lugar. Esse parece ser um reflexo do típico “egocentrismo étnico” norte-americano com sua tendência de olhar o mundo pelas lentes estadunidenses, que idealiza como realidade perfeita aquela que se parece com a realidade americana. De cá, no Brasil, sigo sem interesse no sonho americano...

É claro que Francis Schaeffer foi um homem de grande abertura cultural, tendo ele mesmo dialogado com pessoas de culturas diversas. Mas estaria ele isento ou “imune” às tendências que cercaram sua própria época? Fica evidente que ele procura voltar na História para entender o homem de seu tempo (ele próprio afirma isto no prefácio de A morte da razão), mas ao mesmo tempo parece seguir uma determinada tendência. 

Caberia sua análise num contexto como o Oriental com milênios de tradições e História? O filósofo francês Paul Ricoeur “insurge-se” contra o assim chamado “esquema cristão”, esse “[...] esquema cronológico universal da “história da salvação” que tende a “abolir as peripécias, perigos, fracassos, rupturas e horrores da história em sua procura de uma visão de conjunto tranquilizadora fornecida pelo esquema providencial dessa grandiosa narração” [...] Uma das tarefas  da Teologia narrativa é libertar a rede multiforme dos textos bíblicos dessa concepção unívoca da história da salvação” (RICOEUR, Paul. A Hermenêutica Bíblica. Trad.: Paulo Meneses. São Paulo: Edições Loyola, 2006, p. 38). 

Não seria uma forma equivocada ou mesmo reducionista demais aplicar a leitura de Schaeffer sobre o homem moderno quando se pensa no Oriente com sua enorme e colossal História? Curiosamente, ele parte de Tomás de Aquino (1225-1274), um teólogo católico italiano cuja genialidade conquanto seja inquestionável, naturalmente está escrevendo a partir de um ethos específico e de uma tradição religiosa específica. Essas são questões que precisam ser seriamente levantadas. Inevitavelmente, toda análise, por mais abrangente que seja, nunca será totalmente precisa ao considerar – ainda que indiretamente – culturas alheias com as quais não houve convivência. E tal “percurso” muitas vezes tende a dar lugar a reducionismos, imprecisões (às vezes grosseiras), preconceitos, etnocentrismo e uma compreensão indevida do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que é supracultural, atemporal e aplicável a qualquer povo e lugar no mundo.

Outro ponto importante do pensamento de Schaeffer que merece especial atenção é o que defende que grandes problemas da humanidade, como o aborto, eutanásia, desagregação da família, dentre outros, são resultados da mudança de cosmovisão no mundo ocidental. Ele afirma isto já no início do sermão intitulado Manifesto cristão e também em sua obra A morte da razão (1986). 

Precisamos perguntar, contudo, se de fato, em algum momento da história, o mundo ocidental assumiu uma visão ou uma cosmovisão que fosse exclusivamente “formatada” nos moldes judaico-cristãos. Schaeffer fala em suas obras da “fé bíblica histórica”, e se esforça para indicar, por meio de pontos referenciais na arte e em outras áreas de produção humana, os momentos em que esse paradigma teria começado a dar sinais dessa mudança. Para Schaeffer, essa falta de unidade (Schaeffer entendia que esses eventos por ele mencionados [aborto, eutanásia, etc.] devem ser vistos como resultados de um mesmo problema, como que fazendo parte de uma unidade, e não como eventos isolados que nada tem que ver entre si) e a entrada da cosmovisão humanista é que são os fatores responsáveis pela degradação em que o mundo se encontraria.

Cremos, contudo, que uma breve “caminhada” pela história da América Latina (para não falar do mundo ocidental de modo mais abrangente) já seria suficiente para percebermos que o mundo ocidental nunca teve uma cosmovisão cristã puramente judaico-cristã. Se olharmos para a história do trabalho de catequização cristã propagada por padres católicos em solo tupiniquim, em grande medida o que foi feito não foi um trabalho de evangelização, mas de “cristianização”, e em diversos momentos da história, essa cristianização foi imposta sobre povos indígenas e mais adiante sobre sociedades inteiras, mesmo depois da expulsão dos jesuítas do país, no século 18, e das profundas modificações educacionais que ocorreram logo em seguida (Cf. o artigo: COSTA, João Paulo Peixoto. Os usos da fé: índios, catolicismo e política indigenista no Ceará no século XIX. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, jul. 2011). Mais uma vez, salta à vista aquela forte impressão de que Schaeffer, em certa medida, não pôde evitar construir uma abordagem teológica com traços de “etnocentrismo cristão”, que olha para a realidade mundial a partir de um ethos particular interpretando essa realidade maior a partir desse olhar menor, “desrespeitando” as diferentes realidades, circunstâncias e tradições culturais e religiosas. Ou, como diríamos de forma bem humorada, "olhando o mundo pela fresta da fechadura".

O que poderia ser proposta como solução a esse possível problema no pensamento schaefferiano? Nossa proposta aqui é que o Evangelho deve ser apresentado de modo simples e objetivo, entendendo que ele é supracultural, está acima das culturas humanas, mas não no sentido de que as diferentes culturas devam ser simplesmente ignoradas ou desprezadas. É claro que ao mesmo tempo, a Igreja precisa “ouvir” Schaeffer no que ele diz a respeito da necessidade de sermos capazes de comunicar o evangelho ao homem moderno (em nosso caso, pós-moderno) de modo realmente eficaz, mas estando também atentos no sentido de não descaracterizar o evangelho às custas de uma contextualização. Cremos que este é um esforço que requer diálogo com as diferentes culturas, entendendo suas especificidades, sem, contudo, reduzi-las a um suposto problema comum que, muito provavelmente, essas diferentes culturas nem reconheceriam.

Fica evidente que Schaeffer, a despeito do seu brilhantismo e grande contribuição que trouxe ao pensamento cristão, colocando-se inclusive, como um dos maiores influenciadores nesse sentido, elaborou uma categoria e buscou de algum modo aplica-la à leitura da realidade do mundo, de antes e de seu tempo. Isso fica muito evidente, por exemplo, em suas palavras a seguir: “O que a Reforma nos diz, pois, é que Deus falou nas Escrituras tanto acerca do “andar de cima” como do “andar de baixo” (SCHAEFFER, 1986, p. 22). Mas, certamente esta – e qualquer outra categoria contemporânea, teológica ou filosófica – passaram longe da cabeça dos autores bíblicos. Basta uma leitura bíblica com o auxílio da Teologia Bíblica para perceber isto. 

Obviamente, este “erro” não é exclusividade de Schaeffer. Nossas Teologias Sistemáticas são recorrentes nesse tipo de erro, o que não podemos negar, inclusive. Não por acaso, ao longo das últimas décadas levantaram-se vozes reivindicando uma Teologia autóctone, que respeite as especificidades locais e dialogue com a realidade a que se destinam. A esta altura, precisamos voltar a um conceito fundamental nesta crítica: Conquanto reconheçamos a Bíblia como Palavra inspirada de Deus, e que ela seja um livro de verdades absolutas para a humanidade independentemente de época, lugar e cultura, a nossa compreensão dela é limitada e precisa ser revista, melhorada e ampliada, por vezes. Portanto, ao criticar o pensamento schaefferiano em um ponto em particular não necessariamente estamos criticando a validade e atualidade da Palavra de Deus.


Referências


CARVALHO, Guilherme de. Francis Schaeffer para o século 21. Disponível em: <https://ultimato.com.br/sites/guilhermedecarvalho/2012/02/08/francis-schaeffer-para-o-seculo-21/#more-161> Acesso em 26 ago. 2019.

COSTA, João Paulo Peixoto. Os usos da fé: índios, catolicismo e política indigenista no Ceará no século XIX. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, jul. 2011.

FERREIRA, Franklin. Francis Schaeffer: “levando cativo todo o pensamento”. Disponível em: <https://www.labri.org.br/francis-schaffer> Acesso em 26 ago. 2019.

GONZÁLEZ, Justo L. Dicionário ilustrado dos intérpretes da fé. Trad.: Reginaldo Gomes de Araújo. São Paulo: Hagnos, 2008.

PEREIRA JR., Isaías Lobão. A teologia de Rudolf Bultmann. Disponível em: <www.monergismo.com/textos/teologia/teologia_rudolf.ht> Acesso em 11 set. 2018.

SCHAEFFER, Francis A. A morte da razão. 4ª ed. São Paulo: Editora Fiel da Missão Evangélica Literária, 1986.

SCHAEFFER, Francis. O Deus que intervém. Trad.: Gabrielle Greggersen. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

SCHAEFFER, Francis A. O manifesto cristão. [vídeo]. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?time_continue=108&v=2oG1VQ1HyvM> Acesso em 13 set. 2019.

RICOEUR, Paul. A Hermenêutica Bíblica. Trad.: Paulo Meneses. São Paulo: Edições Loyola, 2006.


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