sábado, 4 de setembro de 2021

O QUE É A VIDA?

 

O QUE É A VIDA?

Envolto num mistério profundo
Sigo agarrado a certezas
O faço, contudo, sem me furtar às dúvidas
Sabendo que sei e sabendo que não sei.
Sei que Ele está perto
Mais até do que posso imaginar
Sinto sua mão
Ainda assim,
Me maravilho com sua insondável capacidade de ocultar-se...
Eu,
Autônomo e dependente
Cercado e só
Preenchido e vazio
Desejado e rechaçado
Absurdamente perto e incompreensivelmente distante...
Que mistério profundo é a existência!
Existir é trilhar entre dois polos
Alegrias e tristezas
Certezas e dúvidas
Presença e saudade
Saber e ignorância
Coragem e medo
Conquistas e perdas.
O que é a vida?
Conexões neurais?
Mas e a Filosofia?
O que é a vida?
O resultado de um longo processo biológico-evolutivo?
Mas e a música?
O que é a vida?
Uma jornada patética de seres fazendo trocas para que vivam os mais fortes?
Mas e o amor, que vai na contramão dessa lógica?
O que é a vida?
Que dança incrível!
Vivemos como que num grande espetáculo
Espetáculo que nos ensina constantemente
E quando estamos na maturidade desse aprendizado
As cortinas desse espetáculo estão para se fechar...
Ainda assim, permanecemos nos corações que apreciaram esse espetáculo.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Sugestões para tornar nossas igrejas terapêuticas e não adoecedoras

 


Prezado(a) leitor(a), é claro que minha experiência pessoal com o movimento evangélico brasileiro é limitada e não se coloca como instrumento aferidor da condição da Igreja, mas depois de tantos anos, de tantas vivências,  de encontros e reencontros com o Evangelho e de diálogo com muitos autores, cristãos e líderes cristãos, pude perceber diversos desafios e limitações que nos envolvem e que vem tornando difícil a permanência em denominações evangélicas. Reconheço, contudo, a necessidade do cristão manter-se vinculado à uma comunidade de fé, e pensando nisto, alisto abaixo algumas sugestões que, assim creio, se aplicadas de forma prática em nossas igrejas, certamente produzirão resultados muito satisfatórios e contribuirão para dar a nossas igrejas um caráter mais terapêutico e menos adoecedor. Considere, assim, a lista a seguir, observando que a colocação de cada sugestão não se deu por grau de importância de cada uma delas.

1. Menos policiamento moral sobre as pessoas

Convenhamos que a pressão psicológica a que as pessoas são submetidas em igrejas evangélicas é praticamente intolerável. Sejamos honestos: ser membro de uma igreja evangélica por vezes significa ser vigiado moralmente o tempo todo. Você precisa pesar constantemente tudo o que vai dizer, como vai se vestir, que foto vai postar, com quem vai tomar um café e falar com uma pessoa do sexo oposto pode ser o caminho para o apedrejamento... 
Precisamos lembrar que comportamento que apenas se dá para atender a determinadas exigências religiosas pode conduzir ao mero formalismo e não necessariamente ser o reflexo de um coração genuinamente transformado pelo evangelho. Não por acaso, os ambientes mais conservadores abrigam os pecados mais podres... Pensemos nisso.

2. Criação de grupos de apoio a casais em processo de divórcio e a divorciados

Sim! Isto mesmo que você acabou de ler. Admito que muitos casamentos só são salvos por um milagre, mas como nem sempre milagres são realizados pelo Senhor, precisamos ao menos nos abrir a ajudar aqueles que passam por esse processo, procurando minimizar os danos. Você não costuma ouvir e ler isto com frequência, certo? É que os evangélicos ainda insistem em se fechar em seus próprios problemas, agarrando-se a utopia da "nova vida perfeita em Cristo" e esquecendo-se que o que deveria ser feito e o como deveria ser nem sempre o são de fato, e precisamos lidar com essa realidade a nosso respeito. 
É óbvio que o ideal é que os casais permaneçam unidos, inseparáveis, mas nem sempre isso é possível. Em geral, nos casos de casais cristãos que se divorciam, o que mais vemos em nossas igrejas são julgamentos, apedrejamento moral e abordagens reducionistas a respeito deles por parte de outros crentes. Mas julgar a história dos outros sem tê-la vivido é fácil, difícil é viver o que a pessoa viveu. Acredito que se nossas igrejas se abrissem a acolher essas pessoas e a ajudá-las, muitos danos e perdas seriam evitados, principalmente, para filhos de pais que se divorciam. E sejamos honestos: nossas igrejas estão lotadas de "divorciados" unidos apenas por um papel chamado Certidão de Casamento... (hum, essa foi no fígado, eu sei).

3. Construção de liturgias mais "leves" e objetivas

O assembleiano precisa, realmente, ser estudado pela NASA. É difícil entender o que levou nossos púlpitos a serem usados da forma como vem sendo usados, nos últimos anos. Ninguém aguenta mais aquela falação ininterrupta que nada tem que ver, realmente, com a liturgia cristã e pentecostal. Muita ladainha, narração de experiências pessoais e exposição de assuntos que não mantêm qualquer relação com o teor do culto. Sei que é chocante o que escrevo a seguir, mas admito que por vezes, durante cultos, cheguei mesmo a me perguntar o que eu estava fazendo ali (!). Nossos púlpitos precisam de fato ter a sua finalidade resgatada, e a sua finalidade é a exposição da Palavra! 

4. Melhor utilização de recursos financeiros da congregação local

Ainda gastamos muito com estruturas e pouco com pessoas; investimos muito em eventos e pouco ou quase nada em formação humana; demandamos muitas ofertas para a próxima obra do templo e nem tanto para a próxima ação missionária; levantamos muito dinheiro para pagar cantores e pregadores e nem tanto para qualificar mestres, doutores, futuros pastores, obreiros e missionários. Precisamos utilizar melhor nossos recursos. Estruturas físicas, conquanto necessárias, existem em função de pessoas, não o contrário.

5. Fomento do ensino bíblico equilibrado (não de militância teológica)

Particularmente, estou horrorizado com o que tenho visto acontecer no campo religioso evangélico brasileiro. Fala-se mais de Calvino, calvinismo, Armínio, arminianismo e outros ismos do que do próprio Cristo Jesus e do evangelho. Conhecer mais sistemas teológicos do que a mensagem do evangelho só evidencia que nos tornamos militantes religiosos e teológicos e não discípulos que levam Jesus ao mundo. Pensemos nisto.

6. Construção de relacionamentos mais duradouros e saudáveis em lugar do tribalismo religioso

Você é evangélico ou evangélica há quanto tempo? Já perguntou a si mesmo ou a si mesma quantas vezes você recebeu a visita de algum irmão em Cristo que não fosse membro de sua igreja local? E de um pastor que não fosse o seu pastor? Raro, não!? Pois é. Tenho dito que nossas igrejas locais se comportam como "guetos" religiosos, "tribos" que só se relacionam quando um conjunto de uma igreja visita outra e é só. E olhe lá...
Como Igreja de Cristo, precisamos erigir pontes e entender que vida cristã não se resume a determinado credo ou confissão teológica, ou a determinado conjunto de usos e costumes adotados por essa ou aquela denominação. Precisamos, como irmãos em Cristo, transcender a essa pobreza relacional que marca nossas igrejas.

Meu desejo para nós, evangélicos, em 2020, é que coloquemos em prática os princípios acima que, embora simples, nos fazem ser mais Igreja, e comunidades de fé mais terapêuticas e menos adoecedoras.


Roney Cozzer

Clique aqui para que eu possa me apresentar melhor a você.

sábado, 21 de agosto de 2021

PRINCÍPIOS DE GESTÃO E DESENVOLVIMENTO PESSOAL SEGUNDO COZZER...


Prezado(a) amigo(a), a gestão do tempo é fundamental para a nossa vida e será definidora, em grande medida, da nossa produtividade e também do nosso descanso e lazer com qualidade. Aprendi isso ao longo do tempo e continuo aprendendo. E como sempre, aqui nas mídias sociais, compartilho com alegria, com você que me lê, sempre naquela expectativa de ajudar.

Esses princípios que tenho aprendido ao longo dos anos e procurado desenvolver são os seguintes:

1. Antes de assumir novas tarefas, focar primeiro na conclusão daquelas já assumidas;

2. Cautela com as distrações! Elas exaurem nosso tempo e o pior: podemos demorar a perceber isso... Portanto, o melhor mesmo é focar no que precisa ser feito e deixar as distrações de lado;

3. Uma tarefa por vez. Tentar fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo só mesmo possuindo atributos da divindade, o que certamente eu não tenho;

4. Mais do que fazer muito, importa fazer com qualidade. A questão não é produzir por produzir, mas entregar conteúdos e tarefas com qualidade que contribuam, de fato, com a Igreja, com a empresa e com a sociedade;

5. Deus e família em primeiro lugar! Nada compensa não acompanhar o crescimento da filha amada; nenhuma conquista econômica justifica perder um bom casamento; nenhum ganho pessoal e/ou profissional é válido ao custo da própria saúde;

6. Ansiedade e estresse matam, por isso é preciso se importar menos sem deixar de importar-se; o comprometimento não pode ser absoluto e nem irrefletido; uma coisa é engajamento sério e resoluto, outra é obsessão tresloucada e irresponsável;

7. O mal comportamento dos outros, bem como suas agressões gratuitas, não definem o meu comportamento. E nenhum contexto, por mais ruim e/ou desafiador que seja, deve determinar que meu comportamento social e/ou profissional também seja ruim;

8. Discussões acaloradas, troca de ofensas e procura por culpados normalmente só nos desgastam e minam nossas energias, não levando a absolutamente nada. É preciso, antes, entender onde erramos e como podemos corrigir e resolver o problema;

9. Estabelecer um julgamento sobre alguém sem antes ouvi-lo é imprudente. Sempre podem existir variáveis que ficaram em nosso "ponto cego". Portanto, o diálogo é sempre a melhor via;

10. Todo esforço sincero e dedicado deve ser respeitado! O Titanic, construído por profissionais, afundou na primeira viagem; a arca de Noé, da tradição bíblica, construída por um amador naval, preservou a humanidade;

11. Humildade é sempre uma disciplina pessoal essencial. Ninguém é tão bom que não possa aprender algo novo e relevante ou tão incapaz que não possa contribuir de algum modo. A arrogância arma laços, afasta as pessoas e por vezes esconde pessoas frágeis e destruídas internamente. É possível afirmar-se como ser humano autônomo sem necessariamente constranger e humilhar outras pessoas;

12. Sono e descanso são elementos fundamentais à produtividade. Há pessoas que pensam que perder noites de sono as fará mais produtivas, mas o fato é que esse dispêndio pode custar muito caro...

sábado, 14 de agosto de 2021

O DESAFIO DA EDUCAÇÃO BÍBLICA EM NOSSO TEMPO (ESBOÇO DE PALESTRA)


TEXTO BÍBLICO BASE

"Até a minha chegada, dedique-se à leitura pública das Escrituras, à exortação, ao ensino" (1 Timóteo 4.13).


INTRODUÇÃO


1. O QUE É "EDUCAÇÃO BÍBLICA"

  1.1 Uma epistemologia comum quanto ao termo "ensino".

  1.2 Ensino que tem a Bíblia como base fundante.

  1.3 Instâncias da Educação Cristã:

    1.3.1 Escola Bíblica Dominical;

    1.3.2 Cursos teológicos;

    1.3.3 Cultos de ensino;

    1.3.4 Classes de discipulado;

    1.3.5 Outros programas variados de ensino.


2. O QUE A JUSTIFICA E SUA IMPORTÂNCIA

  2.1 A Bíblia como livro que rege a vida das comunidades de fé;

  2.2 A ênfase e a constância do ensino na Bíblia;

  2.3 A presença de complexos de ignorância em nossas comunidades de fé;

  2.4 O conhecimento como elemento fomentador do crescimento e amadurecimento pessoal e comunitário.


3. OS DESAFIOS PARA A EDUCAÇÃO BÍBLICA E SUA SUPERAÇÃO

  3.1 A resistência que ainda se nota à Teologia;

  3.2 A falta de investimento em ensino bíblico nas igrejas evangélicas;

  3.3 O despreparo de professores e demais agentes promotores da Educação Cristã:

    3.3.1 O Plano de Aula;

    3.3.2 As Metodologias Ativas;


CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS

E-BOOK GRATUITO: EDUCAÇÃO: ENSINO RELIGIOSO E CONSTRUÇÕES EDUCACIONAIS A PARTIR DA TEOLOGIA

Prezado(a) leitor(a),

Com alegria compartilho com você o livro que acabamos de publicar, no qual participei como organizador e autor, intitulado EDUCAÇÃO: ENSINO RELIGIOSO E CONSTRUÇÕES EDUCACIONAIS A PARTIR DA TEOLOGIA. O livro conta com a participação de diversos autores e oferece importantes contribuições sobre temas da Educação, do Ensino Religioso e da Teologia. Foi organizado por mim e pelo meu grande amigo, Júlio César Pinheiro do Nascimento. Baixa já, gratuitamente, o seu e-book, clicando aqui.



domingo, 8 de agosto de 2021

DAVID MESQUIATI, KENNER TERRA, MÉTODO HISTÓRICO-CRÍTICO E INTOLERÂNCIA MANIFESTA... (UM TEXTO DE OPINIÃO)

 

O livro Experiência e Hermenêutica Pentecostal: reflexões e propostas para a construção de uma identidade teológica, de autoria dos Professores David Mesquiati e Kenner Terra, obra que foi publicada pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), de algum modo contribuiu para evidenciar a intolerância de uma parte expressiva do Pentecostalismo. O livro provocou muitas reações e algumas até agressivas, que pareciam ser de cunho pessoal. Ouvi dizer que a CPAD teria até retirado o livro de circulação dados os muitos protestos.

Pude ler alguns artigos e também diversos comentários no Facebook que atacaram duramente a publicação. Mas, honestamente falando, a meu ver essas abordagens só evidenciam o despreparo de algumas pessoas e também o seu preconceito com alguma proposta que foge aos seus cânones. Infelizmente, alguns autores que publicam em sites populares (isto não é demérito algum) estão refletindo sobre questões que eles mesmos não conhecem a fundo. Produzem-se afirmações sem real conhecimento do que se pretende criticar.

Para exemplificar, veja o absurdo que o autor do artigo intitulado "Teologia da experiência" não é teologia pentecostal escreveu, no Gospel Prime: "Em termos comuns, é claro que a responsabilidade humana é construída por experiências, e que o que o profeta [Oséias] vivenciou pode ser caracterizado como tal, mas - atenção! - com isto se constata que o conceito de experiência para essa abordagem teológica ultrapassa os contornos da pneumatologia e avança ao campo do existencialismo" (ESTEVES, Alex. "Teologia da experiência" não é teologia pentecostal. Disponível em: <https://www.gospelprime.com.br/teologia-da-experiencia-nao…/> Acesso em 04 nov. 2019). 

Concluir que determinado autor está dialogando com o existencialismo a partir de uma citação pontual que ele fez de uma passagem veterotestamentária que envolve uma experiência vivida por um profeta, neste caso Oséias, evidencia que não se tem a menor ideia do que seja o existencialismo na Filosofia. A conexão que o autor do artigo no Gospel Prime estabelece para justificar o uso do existencialismo é completamente imprópria. Kierkegaard e Heidegger devem estar se revirando no túmulo...

Vi levantar-se uma verdadeira "intifada" contra o que tem sido chamado de "Teologia acadêmica", em que muitos clichês e preconceitos são destilados. Os proponentes dessa caçada a teólogos acadêmicos, em meu entendimento, vem produzindo um desserviço na medida em que criticam um contexto que eles mesmos não conhecem. É gente que nem passou pela Academia Teológica e alguns que nem formação teológica possuem criticando quem está pesquisando e produzindo no campo da Teologia. Noutras palavras, não possuem real conhecimento de causa, mas atacam como se tivessem propriedade no assunto. 

O "povão", naturalmente, compra sua crítica. E no mais, por mais que discordemos dos resultados da pesquisa de Mesquiati e Terra, o que eles estão fazendo (a metodologia) não é em nada inovadora. Estabelecer diálogo com alguma corrente de pensamento específica não é algo que tenha sido inventado agora pelos referidos autores. Barth, Bultmann e Tillich fizeram isso no passado. O uso do Método Histórico-Crítico? Fala sério! Diversos comentaristas pentecostais dialogam com ele. Quanta imperícia daqueles que criticam o  uso do Método Histórico-Crítico por autores pentecostais... Ou hipocrisia...

Particularmente, não gostei da proposta de Mesquiati e de Terra em seu livro, mas nem por isso vou produzir ataques sobre uma proposta que eu mesmo não conheci a fundo e me fechar a uma nova possibilidade no campo da pesquisa teológica. O que esses "xiitas pentecostais" não entendem é que diálogo não necessariamente implica ruptura. Lamento muito esse tipo de inflexibilidade e intolerância em nosso contexto pentecostal.

É preciso entender uma verdade: uma Teologia que não dialoga e não se abre à revisões não é Teologia coerente e sensível às realidades de nosso tempo. É apenas uma teologia arrogante e ensimesmada. O Método Histórico-Gramatical, que eu, na condição de estudante e não de exegeta, aprecio e utilizo, é obsoleto e possui deficiências. Enquanto isso, o Método Histórico-Crítico, tão detestado por "nós", prossegue trazendo à lume novas contribuições e abrindo caminho para a Exegese. Você duvida? Compare o Comentário Bíblico Beacon com o Comentário Bíblico São Jerônimo. E este é só um exemplo. 

É lamentável esse tipo de rigidez que temos visto e até presenciado no Pentecostalismo e por vezes percebida em artigos e vídeos. No fundo, o que todo esse zelo pela "ortodoxia doutrinária" traz à tona são interesses políticos, econômicos (já que alguns desses "ortodoxos" divulgam instituições de cursos livres não acadêmicos) e ainda, a intolerância para com quem pensa diferente.

(Observação: este artigo foi originalmente publicado em meu Blog Fundamentos Inabaláveis, em 08 de novembro de 2019).

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Bíblias de Estudo: precisamos de mais?

(Observação: este artigo foi originalmente escrito e publicado em 2015, em meu extinto site Teologia & Discernimento, e revisado e expandido para ser publicado aqui).

Foi com muita alegria que pude ter um de meus “rascunhos” prefaciados por aquele que considero ser não apenas um pregador, mas um pregador-teólogo, comprometido com a verdade do evangelho, Pr. Hernandes Dias Lopes. Suas palavras naquele prefácio foram marcantes e as compartilho aqui, com você: “Hoje o Brasil é o país que mais imprime bíblias no mundo, mas ainda temos uma geração de analfabetos da Bíblia. Poucas igrejas têm um compromisso sólido com o ensino das Escrituras” (LOPES, Hernandes Dias. Prefácio in: COZZER, Roney Ricardo. Introdução ao Antigo Testamento: Pentateuco, Livros Históricos, Poéticos e Proféticos. Curitiba, PR: Editora Emanuel, 2018). 

De fato, convivemos com uma enorme negligência no que tange ao ensino sistemático das Escrituras e a sua promoção pela liderança das nossas igrejas, especialmente as pentecostais (o que, como pentecostal, reconheço com tristeza). Nosso povo também é muito desinteressado de aprender a Palavra de Deus e de cultivar uma vida de devoção profunda (evitemos generalizações, é claro). 

Não é preciso uma pesquisa envolvendo muitas pessoas para se averiguar isso. Nossos cultos de ensino bíblico e de oração em geral ficam sempre vazios. Como alguém que vem proferindo palestras em igrejas e promovendo cursos bíblicos e teológicos, constato isso com meus próprios olhos. E nem sempre a razão desse esvaziamento se dá porquê o palestrante ou o professor é desqualificado. A realidade é que há mesmo um desinteresse, tanto por parte do povo como por parte da liderança de nossas igrejas.

Mas nem tudo são cardos! Temos presenciado sim um crescimento considerável do interesse por parte dos cristãos pelo conhecimento da Bíblia, inclusive entre pentecostais. Cresce a venda de livros teológicos e a busca por cursos teológicos, livres e com reconhecimento do Ministério da Educação e Cultura (MEC). E, naturalmente, cresce também o interesse por Bíblias em várias versões e pelas Bíblias de Estudo.

Por mais de uma vez já me perguntaram, pessoalmente e durante palestras que proferi sobre Bíblia e tradução bíblica, se precisamos mesmo de mais Bíblias de Estudo e se isso na verdade não é apenas o reflexo de um mercado que se instalou na Igreja evangélica Brasileira. A minha resposta para essas duas perguntas é sempre um “Sim”: sim, precisamos de mais Bíblias sim, um mercado se instalou. 

Estou convencido de que a minha resposta dupla representa a realidade em torno dessas questões. De fato, muitas Bíblias de Estudo já foram escritas e elas cumprem o seu papel no sentido de promover o conhecimento das Escrituras, sua melhor compreensão, o entendimento dos contextos que envolveram a produção do texto bíblico, oferecendo assim diversas contribuições. Eu mesmo tenho algumas em minha pequena biblioteca particular. E diga-se ainda que várias dessas Bíblias foram produzidas por estudiosos sérios, de vasta cultura bíblica, de erudição teológica, comprometidos com a difusão da Palavra. 

No esforço para não cometer injustiças e fugindo de qualquer parcialidade, e ainda, reconhecendo o valor desses homens a despeito de possíveis divergências teológicas, cito alguns nomes como Russell P. Shedd, Donald Stamps, Antonio Gilberto, Cyrus Ingerson Scofield, Luiz Sayão, Roland de Vaux, dentre outros, é claro. Sua contribuição nesse sentido é inegável. O próprio Donald Stamps, dias antes de morrer, deixou-nos um marcante testemunho, registrado na conhecida Bíblia de Estudo Pentecostal: “A visão, chamada e sentimento de urgência que tive da parte de Deus para preparar esta Bíblia de Estudo ocorreram-me quando eu servia ao Senhor como missionário no Brasil. Observei que os obreiros necessitavam de uma Bíblia com estudos que os auxiliasse na orientação de seus pensamentos e nas suas pregações. Isto posto, por dez anos, a partir de 1981, comecei a escrever as notas e estudos doutrinários desta obra” (STAMPS, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 15)

As palavras acima são comoventes e ensinadoras. Uma obra que vem à tona como resposta à necessidade de um povo, de uma igreja, de seus obreiros e que demora uma década (!) para ser produzida, demonstrando-se com isto que o projeto foi encarado com seriedade e dedicação. 

Há alguns anos, grande polêmica surgiu em torno de uma Bíblia que foi lançada com o nome de certo cantor evangélico, na época muito popular. E de fato, não era pra menos. A Bíblia levava a logomarca do cantor na capa e como ele mesmo afirma em um vídeo explicativo sobre o projeto, nela ele contava suas experiências pessoais com Deus, além de oferecer, na Bíblia, algumas fotos pessoais. Não pretendo aqui julgar suas intenções, como alguns fizeram na internet, na época, chegando a alegar que o produto surgia numa hora em que a vendagem dos seus CDs estava em declínio. Penso que só Deus pode julgar com total precisão as intenções do coração humano. Mas algumas questões merecem nossa avaliação crítica pela sua evidência: o referido cantor não demonstrava cultura bíblica alguma em suas canções e ele alegava crer que a Bíblia, com fotos e relatos de suas experiências pessoais com Deus, poderiam estimular os jovens a ler mais a Bíblia. As motivações para tal projeto são, no mínimo, questionáveis. Justificar um projeto dessa natureza alegando que precisa-se de uma Bíblia que divulga experiências pessoais para estimular a sua leitura é no mínimo um absurdo. Precisamos sim de Bíblias que expliquem a própria Bíblia levando-nos a entendê-la melhor! 

Embora tenha um pouco de reserva quanto a livros que tenham caráter muito pessoal, estou convencido de que seria muito mais legítimo por parte do cantor evangélico que ele tivesse escrito um livro, de cunho pessoal, onde poderia ter compartilhado com o seu público as suas experiências, mas atrelar isso a uma Bíblia é realmente inadmissível. Considero isso uma ofensa a uma tradição de longa data que vem sendo cultivada no sentido de produzir Bíblias de Estudos com enfoques variados. 

O referido cantor apelava à sua popularidade, dizia ser um dos mais influentes cantores evangélicos na época e que desejava usar isso para incentivar os jovens à leitura da Bíblia. Admito que nossa influência possa ter alguma utilidade, mas nesse caso, essa não seria essa uma motivação equivocada? Paulo expressa sua motivação em pregar o evangelho dizendo que isso era uma necessidade para ele (cf.: 1 Co 9.16), e não porque era influente. Em outras palavras, o evangelho por si, e não pelo anunciador. 

Fiquei mais consternado ainda ao saber que o projeto foi patrocinado pela Sociedade Bíblica do Brasil, uma editora cujo legado maior é a difusão das Escrituras no Brasil e no mundo. Deixo claro aqui que minha crítica neste texto não me leva a ignorar o fato de que, no que tange à difusão da Bíblia, a Sociedade Bíblica do Brasil é uma das maiores referências mundiais. Estou convencido, contudo, de que tal patrocínio, por parte da referida Sociedade, é incoerente com a sua visão, com o seu legado e com o seu projeto maior que é “Promover a difusão da Bíblia e sua mensagem como instrumento de transformação e desenvolvimento integral do ser humano” (Sociedade Bíblica do Brasil [site]. Disponível em <http://www.sbb.org.br/interna.asp?areaID=14>. Acesso em 13 abr. 2015). E reconheço que ela tem, com eficácia, cumprido essa missão, para glória de Deus. Mas, por que patrocinar um projeto como esse, que leva o nome de um cantor que em suas canções não transparece cultura bíblica, não evidencia intimidade com a Bíblia e dava um viés essencialmente pessoal ao projeto?

Voltando à pergunta que dá título a este texto, “se precisamos de mais Bíblias de Estudo?”, respondo que Sim e que Não. Sim, pois precisamos que o povo evangélico tenha à sua disposição ferramentas de estudo de qualidade, produzidas por estudiosos com boa formação e experiência, com vistas a aumentar sua compreensão da Palavra de Deus. E não, definitivamente não precisamos de Bíblias que sejam produzidas com vistas a divulgar experiências pessoais e imagens pessoais, sendo reduzidas apenas a uma possível tendência de mercado. E no mais, experiência pessoal é pessoal: só serve para quem a teve. No máximo, podemos colher algumas lições. 

Não, não precisamos de Bíblias que divulguem fotos e fatos sobre quem quer que seja porque essa pessoa é influente ou famosa. Isso não produz espiritualidade e nem profundidade de vida cristã. Isso só será gerado no cristão quando ele desenvolver uma vida de contínua comunhão com Deus por meio da oração, da leitura e do estudo contínuo das Escrituras e sua consequente compreensão. Esse caso, na época, na verdade, não foi o único. Outros projetos ridículos como esse já foram veiculados e isso só evidencia o quanto a Igreja brasileira precisa dar meia volta em direção a verdade do evangelho e viver conforme ela. Lamento profundamente que uma crise se instala em nossos dias e precisamos de fato experimentar um reavivamento, um retorno às Escrituras.

Concluo este breve texto desejoso de que Deus continue sim levantando teólogos para produzirem novas Bíblias de estudo, mas com a motivação correta, a exemplo do que pudemos ler acima, das palavras do Missionário Stamps, autor dos estudos e notas da Bíblia de Estudo Pentecostal. Obras que surgem com o objetivo de servir de modo eficaz à Igreja brasileira, enobrecendo assim sua utilidade e finalidade.

Felicidade

Por Roney Cozzer Assine minha newsletter e receba um livro de presente : clique aqui para assinar. Três - é o número de vezes que assisti es...