segunda-feira, 4 de julho de 2022

RASCUNHOS EXEGÉTICOS SOBRE ROMANOS 7.14-25

PERGUNTA PROBLEMA

Estaria a expressão paulina contida em 7. 24 fazendo referência à condição de Paulo como fariseu sob a Lei, ou é uma referência à condição atual do cristão?


CONSIDERAÇÕES

Conquanto admita-se que esta seja uma expressão que aluda à condição de Paulo sob a Lei, como fariseu, é fato que a mensagem aplica-se também à condição atual do cristão. Isto pode ser percebido pelos fatores possíveis que se seguem:


A perícope de Romanos 7.14-25 emprega palavras, noções e - pode-se concluir - uma teologia comum a outros textos paulinos que tratam da luta interna do cristão contra o pecado (em termos atuais). Palavras como "Lei", "pecado" e "corpo" carregam, na teologia paulina, a ideia dessa luta constante contra inclinações contrárias à graça de Deus, indicando ser ela parte da condição atual do cristão (atual ao tempo que Paulo escreve e, por aplicação, ao cristão hoje). Gálatas 5.17 afirma: "Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne; e estes opõem-se um ao outro; para que não façais o que quereis" (Almeida Revista e Corrigida). A Bíblia de Jerusalém afirma: "Trata-se aqui do homem sob o domínio do pecado antes da justificação, enquanto no cap. 8 tratar-se-á do cristãos justificado, na posse do Espírito. Mas este também, aqui na terra, experimenta a divisão interior (Gl 5,17s)" (Bíblia de Jerusalém, 2006, p. 1978, nota a).


Porque a Lei é vista na perícope em perspectiva ao pecado, e o pecado continuava sendo uma realidade presente para Paulo (Rm 6; Gl 2 e 6). A carne é, no pensamento paulino, o elemento que enfraquece a Lei (cf. 8.3). E a carne continua sendo uma realidade presente na condição cristã. Isto fica claro por textos como Gálatas 5.16: "Digo, porém: Andai em Espírito e não cumprireis a concupiscência da carne". 


É possível aplicar textos bíblicos, a partir de uma exegese séria, a realidade do cristão, hoje. A própria exegese pressupõe que os resultados do seu trabalho cheguem à comunidade de fé por meio de uma aplicação possível. Não fosse isso, o texto bíblico não teria valor de regra e de fé para as comunidades de fé, reduzindo-se a uma obra literária da Antiguidade a ser analisada academicamente. O exegeta pentecostal Craig S. Keener (2017, p. 522) afirma o seguinte: "Para muitos comentaristas, o trecho de Romanos 7.14-25 descreve a luta de Paulo com o pecado na época em que escrevia a passagem, pois ele usa verbos no tempo presente". 


BIBLIOGRAFIA

Bíblia de Jerusalém: nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2006.

KEENER, Craig S. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Novo Testamento. Trad.: José Gabriel Said. Thomas Neufeld de Lima. São Paulo: Vida Nova, 2017.


Roney Cozzer

sábado, 4 de junho de 2022

CRÔNICA DE UM PROFESSOR FRUSTRADO...


Vez ou outra, e outra vez recentemente, me vejo tomado por profunda frustração.
Sou levado a repensar minha atividade docente, especificamente, a qualidade do meu ensino e o impacto que ele causa.
Estendo à minha tarefa de ensinar a reflexão ou a indagação que aplico à minha própria vida: Qual o sentido?
Para mim, a busca pelo sentido tem sido também uma jornada de busca pelo que dá sentido ao sentido...
Noutras palavras, faz sentido por isto e por aquilo, e isto e aquilo é que dá o significado...
E ao longo do caminho, tenho encontrado migalhas deliciosas, com as quais tenho saciado parcialmente minha fome.
Isto é um fato!
Mas admito que vendo a amplitude do conhecimento, a velocidade com que ele caminha, a exigência dos aprendentes e a perícia com que ensinam os grandes mestres, me sinto frustrado...
Que diferença eu faço? Estaria eu, de fato, em condições de integrar o grupo dos que ensinam com excelência? Estaria eu enganando a mim mesmo? Estaria eu no lugar errado?
Nessa autoanálise, até que ponto me enganei? E até que ponto acertei? Afinal de contas, nossa avaliação sobre nós mesmos será sempre viciosa e tendenciosa...
Mas o curioso - e me perdoem por isto! - é que a despeito disto... Ou melhor, também em função disto, eu simplesmente prossigo:
Cada aula precisa ser melhor, cada sentença pronunciada precisa ser mais clara, cada epistemologia precisa ser mais profundamente justificada e explicitada e, cada hipótese, defendida com mais cuidado.
As migalhas estão aí... São aquelas caras de espanto e de maravilhamento que meus alunos vez ou outra fazem mediante o compartilhar de alguma noção nova para eles... 
Também o comentário de que sua mentalidade e mesmo o seu comportamento foi afetado em alguma medida mediante algum conhecimento novo que eu transmiti a eles...
Ou alguém que comenta ter lido com satisfação algum texto meu, que pretendi que fosse um livro...
Ah, isso não tem preço! Que migalhas saborosas!
Mesmo diante de minhas incertezas, prossigo, agarrando-me a algumas certezas preciosas...
Que dança maravilhosa essa, de uma frustração que me impulsiona à seguir em frente, mas me mantêm no lugar em que devo permanecer: no lugar da humildade pedagógica...

Roney Cozzer
www.teologiavida.com


 

quinta-feira, 21 de abril de 2022

COMO ESCREVER UM LIVRO

 


Dicas para quem deseja publicar livros! Inscreva-se lá no canal e me siga nas redes. Instagram: https://www.instagram.com/roneycozzer/ Facebook: https://www.facebook.com/roneyricardo...

domingo, 17 de outubro de 2021

O DESAFIO DE SER DEUS (ESBOÇO DE SERMÃO)



TEXTO BÍBLICO BASE

"Ouvi, ó Céus, presta atenção, ó terra, porque Iahweh está falando: Criei filhos e os fiz crescer, mas eles se rebelaram contra mim. O boi conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura de seu senhor, mas Israel é incapaz de conhecer, meu povo não é capaz de conhecer, meu povo não é capaz de entender" (Isaías 1.2,3, Bíblia de Jerusalém, 2006).


INTRODUÇÃO

Há cenas de filmes que realmente nos marcam. Uma em particular me é muito especial. Aquela do filme O Todo-poderoso, que tem como protagonistas os incríveis atores Jim Carrey e Morgan Freeman, em que o Morgan, representando Deus, se dirige ao Jim, que representa o Bruce, e diz para ele o seguinte: "Não é fácil, Bruce, esse negócio de Deus". 

O enredo do filme é muito interessante e comunica uma mensagem mais interessante ainda. Bruce recebe de Deus os seus poderes e começa a usar e a abusar deles. Mas a certa altura do filme, tudo dá errado, especialmente porque Bruce, agora no lugar de Deus, responde com um "Sim" a tudo que as pessoas lhe pediam. A cidade então vira um caos e Bruce se desespera. 

É nesse momento que ele se reencontra com Deus (Morgan), que diz para ele: "Não é fácil, Bruce, esse negócio de Deus!" Ao ouvir essa frase, fui levado a refletir sobre como nos equivocamos sobre a pessoa de Deus, nutrindo concepções a respeito Dele por vezes distante do que a Bíblia realmente nos ensina sobre a sua Pessoa. O texto bíblico escolhido para embasar esse sermão sinaliza justamente para a ignorância de um povo que, conquanto fosse religioso, na verdade não conhecia o seu Deus. No filme, Bruce tinha uma concepção totalmente errada a respeito de Deus, mas agora começa a compreendê-lo e a compreender fatos da vida por uma perspectiva totalmente diferente: mais madura, sensata e responsável.

Que concepções erradas nutrimos sobre Deus? Por vezes, nossa formação religiosa contribui para introjetar em nós uma imagem a respeito Dele que até mesmo nos adoece em diferentes esferas da nossa existencialidade: espiritual, subjetiva, familiar, social... Sem dúvida, a maneira como vemos e entendemos uma pessoa será determinante sobre a forma como nos relacionamos com ela. Consideremos a seguir algumas dessas formas equivocadas de encarar Deus.


1. DEUS COMO A "ALTEZA DISTANTE"

Recebemos uma espécie de herança religiosa em nossa formação cristã: a imagem de Deus como um tirano, um déspota, sempre pronto a castigar e a lançar no Inferno. Nutrimos a ideia de um Deus sempre visto em termos punitivos e de violência. E tal concepção não é de agora, como bem sabemos: ela remonta à Idade Média.

A Bíblia, especialmente o Novo Testamento, no entanto, nos apresentam Deus como aquele que, em Cristo, despiu-se de sua glória e majestade. Tornou-se servo e semelhante aos homens (Fp 2.7). Ensinou o serviço e a humildade (Mt 23.8). Abraçou crianças, acolheu pecadores, foi tocado por mulheres, fez refeições com publicanos e outros marginalizados pela sociedade judaica e confundia-se com seus discípulos. 


2. DEUS COMO O "GARÇOM CELESTIAL"

Infelizmente, com a popularização da Teologia da Prosperidade no Brasil, grande parte do movimento evangélico brasileiro, com suas muitas denominações, assumiu uma visão muito equivocada a respeito do Senhor: ele tem sido encarado como uma espécie de "garçom celestial". Essa forma de entender Deus contribui diretamente para se produzir uma religiosidade e uma espiritualidade que são utilitárias e materialistas, regidas por interesses mesquinhos e desprovidos de alteridade - essência do verdadeiro seguimento de Cristo.

Essa forma de se relacionar com Deus estabelece, na verdade, uma espécie de consumismo religioso. Contribui ainda para configurar uma forma de "empreendedorismo religioso". E qual o problema disto? Tal postura foge ao que se espera do verdadeiro discipulado cristão, que pressupõe uma relação de amor a Deus e ao próximo, que opera pela fraternidade, compaixão, solidariedade e capacidade de compartilhar, não de acumular.


3. DEUS COMO "AQUELE QUE FAZ O QUE NÓS DEVERÍAMOS FAZER"

Infelizmente, existe uma tendência muito forte na religiosidade do evangélico brasileiro de se relacionar com Deus em termos de uma dependência que viola sua própria autonomia como indivíduo. Dito de outra forma: o evangélico se aproxima de Deus entendendo precisar Dele para trivialidades da vida. Deus, no entanto, nos chama a uma autonomia responsável, e além das Escrituras, que são aptas para instruir para a vida (2 Tm 3.16,17), Ele também nos deu "instrumentos" importantes como o bom senso e a razão, que devemos usar nas decisões e ações da vida.

Essa religiosidade de dependência extrema infelizmente deu lugar a compreensões equivocadas sobre o nosso próprio papel em nossa vida e na vida de outras pessoas. Tornamo-nos reféns de promessas, de expectativas e de arquétipos dos quais realmente não damos conta, esperando milagres acontecerem, quando na verdade somos chamados pelo Evangelho à responsabilidade na vida, responsabilidade pelas nossas próprias escolhas, ações e também pelas suas consequências. 

É muito fácil esperar que Deus providencie os recursos essenciais àqueles que não tem condições de dizimar ao invés de nos movermos para ajudar essas pessoas; é mais confortável esperar que Jesus multiplique os pães para saciar os famintos, mandar os famintos irem embora em busca de comida, quando na verdade o que Jesus ensina mesmo é que nós devemos dar de comer a quem passa dificuldade. No Evangelho lemos assim: "Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se dele e disseram: "Este é um lugar deserto, e já está ficando tarde. Manda embora a multidão para que possam ir aos povoados comprar comida". Respondeu Jesus: "Eles não precisam ir. Dêem-lhes vocês algo para comer" (Mt 14.15,16). Pensemos nisto!


CONCLUSÃO

Aí está o grande desafio de ser Deus: não ser compreendido pelos seus filhos como Ele realmente é, como Quem Ele realmente é. Por mais paradoxal que seja, mesmo o Todo-poderoso, que a todas as coisas criou, enfrenta certa "dificuldade". Em Isaías, o Eterno "desabafa"! Ele diz: "O meu povo não entende". O que Ele espera de nós é que o compreendamos, o conheçamos e o amemos. Assim, de fato, teremos condições de nos relacionar corretamente com Ele.

O Cristianismo é uma religião que, corretamente entendida, nos eleva e não mediocriza. Precisamos ser capazes de tomar decisões com responsabilidade, seguindo na via de uma ética regida pelo amor a Deus e ao próximo, sem atribuir a Deus tudo aquilo que Ele, na verdade, colocou sob nossa condição de fazer e realizar. Vale concluir aqui com a fala de "Deus" (Morgan), no filme O Todo-poderoso, para Bruce (Jim): "Você quer um milagre, Bruce? Seja você esse milagre!" 


REFERÊNCIAS

Bíblia de Jerusalém: nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2006.


Por Roney Cozzer

sábado, 16 de outubro de 2021

A EQUILIBRAÇÃO ENTRE RAZÃO E EMOÇÃO

 

"[...] estar integrado a um grupo é parte da própria natureza do ser humano. O indivíduo busca se integrar na família, no trabalho, na igreja, na associação, etc. Desde a primeira infância o ser humano já deixa muito evidente a sua sociabilidade. Ele se desenvolve a partir do outro, em diversos âmbitos: intelectual, físico, espiritual, moral, social, profissional, afetivo e emocional, na utilização da linguagem (LORENA, 2014, p. 31).

Consciente disto, o líder cristão deve trabalhar para tornar a comunidade de fé que lidera um grupo o mais saudável possível, para que ela possa assim ajudar as pessoas que a ela se integram. A construção de uma comunidade de fé que seja acolhedora é um processo e demanda esforços e cuidado. É preciso ter isto como objetivo. Nessa vivência comunitária da fé, quando saudável, subjetividade e coletividade se encontram de maneira muito produtiva, permitindo que expectativas positivas se confirmem, revisões sejam feitas na própria personalidade e na comunidade, esforços em prol de valores e atividades fundamentais sejam empreendidos, de modo que tudo isto contribui diretamente para a saúde emocional, espiritual e comunitária de todos os envolvidos.

É preciso desenvolver a afetividade. “[...] De acordo com Piaget, afetividade e inteligência andam lado a lado, são consideradas inseparáveis e formam os dois aspectos complementares de toda a conduta humana” (LORENA, 2014, p. 31). Com efeito, a vida é uma constante equilibração entre razão e emoção. É preciso pensar e sentir, entender e viver, refletir e chorar. Por mais que se valorize sobremodo a razão, hoje em dia, é fato que as emoções interferem diretamente em nossas ações, explodindo na cotidianidade. Daí a necessidade delas serem equilibradas com a razão, de modo que as ações humanas sejam coerentes, não egoístas, produtivas e edificantes para si e para o outro" (COZZER, Roney Ricardo. Psicologia aplicada ao ministério pastoral. Serra, ES: Centro de Ensino Superior FABRA, 2021).


sábado, 25 de setembro de 2021

HERMENÊUTICA PARA INTERPRETAR AS PROFECIAS BÍBLICAS (ESBOÇO BRAINSTORMING)



TEXTO BÍBLICO BASE:

"Filipe correu e ouviu que o homem lia o profeta Isaías; e perguntou: Entendes o que estás lendo?" (Atos 8.30, Almeida Século 21).


INTRODUÇÃO

A Hermenêutica, teológica e não teológica, é um ramo do conhecimento essencial para as Ciências Humanas. Ela precisa ser levada em conta no estudo de outras disciplinas, o que permite assim um estudo que seja feito em perspectiva transdisciplinar. Isso contribui para produzir conhecimento que seja mais coerente e abrangente.

A relação da Hermenêutica Bíblica com o assunto das profecias bíblicas de teor escatológico é atual e muito relevante. As afirmações escatológicas que são feitas pela Igreja precisam ser sustentadas por aparato hermenêutico, de modo que se produza uma reflexão escatológica mais coerentes, sensatas e sobretudo, bíblicas de fato.

As duas disciplinas - Hermenêutica e Escatologia - precisam dialogar. O estudo e a compreensão de textos bíblicos escatológicos precisam levar em conta princípios hermenêuticos diversos, que colaboram para uma interpretação que permite uma aproximação do sentido original, aquele que foi pretendido pelo hagiógrafo.


1. DEFINIÇÃO E UTILIDADE DA HERMENÊUTICA

A Hermenêutica pode ser definida como ciência Arte da interpretação bíblica. Ela também oferece uma série de princípios interpretativos que contribuem para assegurar uma compreensão mais coerente do texto bíblico. 

A Hermenêutica também é entendida em termos filosóficos, como uma disciplina filosófica. E neste caso, vários pensadores deram a sua contribuição. Comentando o pensamento hermenêutico do filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005), Moisés Silva e Walter Kaiser Jr. (2002) afirmam o seguinte: "O trabalho de Paul Ricoeur é especialmente conhecido nesse sentido. Entre suas inúmeras ideias sugestivas, devemos notar sua ênfase na distinção das relações entre falar-ouvir e escrever-ler. No discurso oral, o sentido do discurso se sobrepõe à intenção do orador. “Dentro do discurso escrito, porém, a intenção do autor e o sentido do texto deixam de coincidir [...] o rumo do texto deixa escapar o horizonte finito vivido por seu autor. O que o texto significa agora é mais importante do que a intenção do autor quando escreveu” (Paul Ricoeur. Interpretation Theory: Discourse and the Surplus of Meaning (Fort Worth: Texas Christian University, 1976, p. 29-30). Embora o próprio Ricoeur não fosse um estudioso da Bíblia, ele estava profundamente interessado no pensamento religioso e, portanto, muitos teólogos e estudantes da Bíblia tem sido influenciados pelo seu trabalho" (SILVA. KAISER, 2002, p. 225).


2. DEFINIÇÃO E UTILIDADE DA ESCATOLOGIA

A Escatologia cristã tem sido tradicionalmente definida como a "doutrina das últimas coisas": "O substantivo escatos significa “último” e unido ao vocábulo logos, “palavra”, trazendo assim o sentido de “estudo das últimas coisas”. Escatologia, portanto, é a disciplina que se debruça sobre as profecias e os escritos acerca dos fins dos tempos" (COZZER. HENRIQUE, 2021).

A Escatologia pode ser individual ou cósmica. A individual é aquela que trata do destino individual do homem e inclui temas como a morte, estado intermediário dos mortos e ressurreição. A Escatologia também pode ser cósmica, que trata do destino da humanidade e do próprio universo.

A Escatologia deve ser definida ainda como uma compreensão cristã a respeito do futuro com implicações no presente. Dito de outra forma, a Escatologia nos oferece explicações e compreensões a respeito do futuro que nos levam a assumir posturas no hoje, na realidade da vida cotidiana. Por exemplo, a convicção de que Cristo voltará infunde nos cristãos esperança e zelo pela vida espiritual.

A Escatologia é uma disciplina teológica muito importante, não apenas para a Teologia Sistemática, mas para a Teologia de modo geral. Infelizmente, ela vem sofrendo banalizações ridículas! Mas a sua utilidade prática é muito concreta e plausível: produz esperança; vivifica a espiritualidade; chama à ação no mundo da vida e ao discipulado cristão.


3. TRANSDISCIPLINARIDADE EM TEOLOGIA

- "Pensar uma disciplina teológica em termos de transdisciplinaridade significa, em nosso entendimento, pensar uma teologia que seja bíblica e ortodoxa, mas não unívoca e ensimesmada" (COZZER. HENRIQUE, 2021);

- "A transdisciplinaridade pensada em relação a uma disciplina teológica ou mesmo em relação a própria Teologia como uma área de conhecimento bem ampla, implica pensar um conhecimento teológico que é articulado em interação com outras disciplinas, de outras áreas" (COZZER. HENRIQUE, 2021);

- "[...] a transdisciplinaridade indica o percurso entre campos do saber, e esse percurso não deixa de ser lógico e organizado; a ideia de transdisciplinaridade “rompe”, de certo modo, com o conceito de disciplina e busca assim construir o conhecimento de modo mais integrado, não atomizado e não compartimentalizado. Deve-se lembrar que o prefixo trans aponta justamente para o percurso entre ou através das disciplinas, unificando assim o conhecimento" (COZZER. HENRIQUE, 2021).


CONCLUSÃO

Tenho defendido (verbalmente e pela escrita) que a Hermenêutica Bíblica não só pode, como deve ser “transposta” da Academia Teológica para a vida prática da Igreja. Noutras palavras, meu entendimento é que ela não deve ser apenas uma disciplina restrita, ou “confinada” à Academia Teológica, mas pensada e articulada para a vida prática da Ekklesia. Se isso não acontece, em relação à Hermenêutica Bíblica, ela será reduzida apenas a um esforço acadêmico que se ocupa de interpretar um texto antigo, e não o esforço de interpretar um texto antigo cujos resultados da interpretação são aplicáveis à vida comunitária da fé.


REFERÊNCIAS

COZZER, Roney Ricardo. HENRIQUE, Samuel Cândido. Escatologia Bíblica numa perspectiva transdisciplinar: uma análise das escolas escatológicas, da Hermenêutica, da História, da Teologia Bíblica e como a interpretação escatológica influencia a Igreja em sua ação missional. São Paulo: Fonte Editorial, 2021.

SILVA, Moisés. KAISER Jr, Walter C. Introdução à Hermenêutica Bíblica: como ouvir a Palavra de Deus apesar dos ruídos de nossa época. Trad.: Paulo César Nunes dos Santos. Tarcízio José Freitas de Carvalho e Suzana Klassen. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.


Roney Cozzer


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

O VALOR DA MELANCOLIA

 


Já faz um bom tempo que venho pensando em escrever algo sobre o valor da melancolia e sobre o valor da tristeza típica que sempre a acompanha. Para mim, é muito significativo escrever e refletir sobre um sentimento que, por vezes, queremos empurrar para debaixo do tapete. Se bem que no caso do meu aparelho psíquico, tapete e melancolia são dois elementos que se mantêm bem distantes um do outro. 

Admito, até com certo orgulho, que melancolia e nostalgia tornaram-se duas amigas inseparáveis e íntimas de mim ao longo do tempo. Não me envergonho dessas amizades. E quem é mais próximo de mim sabe disso e me aceita melancólico como sou. Melancólicos são complexos, admito, mas costumam ser profundos, sensíveis e perceptivos. 

Há um lado positivo nesta reflexão: o reconhecimento do próprio temperamento. O conhecimento das características típicas de cada um dos quatro temperamentos, a saber: colérico, sanguíneo, fleumático e melancólico, é importante para a redução de caricaturas e preconceitos que se estabelecem tantas vezes em nossos círculos sociais. Cada temperamento tem suas especificidades e quando o assunto é temperamento, não se devem estabelecer avaliações do tipo “este é melhor e aquele é pior”. Os temperamentos devem ser considerados em termos de prós e contras, vantagens e desvantagens. E podem ser melhorados.

Para muitas pessoas, a simples menção e reconhecimento público de que se é melancólico, já e suficiente para que se torçam narizes e se façam olhares suspeitos. Quando menciono em público o meu temperamento melancólico percebo que algumas pessoas tratam a “melancolia” como uma espécie de doença. Mas é como dizem: O desconhecimento gera preconceitos…

Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, acertou em cheio ao avaliar nosso tempo (como sempre!) quando comenta a respeito da incapacidade do sujeito pós-moderno de ficar a sós consigo mesmo. Afirma Bauman: “Nesse nosso mundo sempre desconhecido, imprevisível, que constantemente nos surpreende, a perspectiva de ficar sozinho pode ser tenebrosa; é possível citar muitas razões para conceber a solidão como uma situação extremamente incômoda, ameaçadora e aterrorizante” (BAUMAN, Zygmunt. 44 cartas do mundo líquido moderno. Trad.: Vera Pereira. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 14). Tenho a impressão de que a minha geração já não sabe muito bem o que é isto, e as novas então… Nessa hora é preciso considerar alguns fatores.

Nossa vida acelerada e sempre agitada tem nos levado à incapacidade de conviver. E isto tem relação com esta incapacidade de ficar a sós consigo mesmo. Só convivemos bem quando nos conhecemos bem, e só nos conhecemos bem ficando a sós consigo mesmo. O autoconhecimento é também o caminho para a sabedoria e para a saúde emocional. 

As pessoas na Pós-modernidade, enganadas pelo discurso da “autossatisfação sempre”, fomentado pelo consumismo que as consome, caem na ilusão de que para viver bem precisam estar sorrindo o tempo todo, sempre em pé, radiantes. A vida ideal poderia ser resumida naquela exclamação tão cara para nós, evangélicos: “Só vitória!” Mas isso é uma grande ilusão! 

Desconfie de quem está sempre pronto, sempre bem, sempre sorridente, sempre santo, sempre com tudo "certinho". Sim, desconfie de pessoas assim. Algumas escondem um monstro. Uma coisa tenho aprendido ao longo da vida: O ser humano é um ser imperfeito e sempre terá problemas em todas as esferas de sua existência. E a melancolia, como temperamento ou como um estado temporário, é uma dimensão fundamental da existência humana.

A melancolia, com a tristeza que traz, possibilita algumas coisas incríveis que a vida agitada da Pós-modernidade vem tirando de nós. Elementos que são vitais para este autoconhecimento que aqui menciono. São eles: a possibilidade de sair de cena, de ficar sozinho com você mesmo, de respirar. Possibilita a reflexão sobre quem temos sido até aqui, o que realmente queremos, o que estamos fazendo e para onde estamos indo. 

Minha amiga melancolia constantemente me faz lembrar pessoas queridas que se foram e outras que nem se foram, mas que pela agitação da vida permito ficarem longes de mim. Numa era em que o outro já não importa mais, e em que nossa agenda só inclui reuniões e não mais pessoas, sentir saudades de pessoas especiais pode significar o resgate da alteridade, pode ser a recuperação da capacidade de conviver. Acredito que de algum modo, minha melancolia me torna uma pessoa melhor.

Para aqueles que detestam a tristeza e a melancolia, é preciso lembrar que grandes personalidades, que grandes contribuições trouxeram à humanidade, eram pessoas profundamente melancólicas. É claro que sua capacidade não se deve exclusivamente ao fato de terem sido melancólicas, mas a melancolia sem dúvida contribuiu para o seu brilhantismo. 

Personalidades melancólicas são encontradas em todas as áreas: na Teologia, na Literatura, na Arte, na Música. Pessoas profundamente melancólicas legaram-nos obras magníficas, peças extraordinárias, poemas tocantes, reflexões profundas e sons envolventes que foram, sem dúvida, resultado de horas e dias no "fosso" proporcionado pela melancolia.

E claro, não poderia deixar de reconhecer os desafios inerentes de um temperamento melancólico. Minha ciclotimia me assusta, eu admito. Minha obsessão pelo vazio e pelo que falta chegam a ser, de fato, inconvenientes. E o envolvimento emocional de um melancólico, então, não tem nada de típico: É tudo ou nada, é intenso, precisa ser de verdade. Polidez demais me assusta; formalidade em excesso me afasta. Ah! Eu e meu hábito de insistir em ver a alma das pessoas… Isto às vezes me faz tão bem, mas às vezes me destrói… 

A sensibilidade que carrego tem sido uma autoestrada de ajuda para muitos, mas por vezes, o que não toca ninguém é suficiente para me lançar precipício abaixo… O olhar distante não é o reflexo de uma alma violenta, apenas reflete o voo indomável da minha mente que me torna autônomo, inquieto, inquiridor, submisso mas não manipulável e isto me faz sofrer numa sociedade que oprime, que move pessoas como se move peças num jogo de xadrez. Desse modo sigo, sentindo-me absurdamente estranho neste mundo, e ao mesmo tempo, absurdamente normal. 

Detalhes me saltam à vista, e o “não dito” grita aos meus ouvidos. A realidade de fato me assusta algumas vezes e me refugio, em alguns momentos, na companhia das ilusões, do fantasioso, do ideal, do metafísico. Desse refúgio, então, retorno à realidade, de certo modo revigorado, e pronto para seguir em frente, afinal, quem não tem ideais, ilusões e utopias não tem razão para avançar. 

Procuro usar tudo isto para ser melhor, para errar menos, numa vida em que o erro é inerente. Permito, assim, que a melancolia chegue, seu lugar já está reservado. Eu a ouvirei outra vez, como das vezes passadas, pois ouvi-la, significa ouvir a mim mesmo, significa ouvir os outros, significa ouvir o cicio suave e tranquilo que uma vida agitada não permite ouvir.

Enfim, eu sou alguém nada interessante, apenas um melancólico que se interessa pelo que não é tão interessante...

Já sei o que você deve estar pensando: “Que sujeito estranho esse!” 

Sou tentado a concordar…

Roney Cozzer… com melancolia, é claro.

Felicidade

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